Prefácio da autora

Louvado seja Deus, o Senhor do Universo, o Único, que não possui sócios, d'Ele a Autoridade e a Ele o Louvor, e Ele é, sobre todas as coisas, Onipotente.

Que a paz e a bênção de Deus estejam com o Profeta Muhammad, seus familiares, companheiros e seguidores.

O objetivo deste livro é transmitir aos não-muçulmanos informações gerais sobre o Islam, um assunto de crescente importância no cenário internacional, que vem sendo, insistentemente, abordado pela mídia de forma simplista e depreciativa.

Os muçulmanos vêm sendo mal interpretados pelo Ocidente, que emite opiniões sem fundamento, denegrindo a imagem do Islam perante a população que não possui informações suficientes para formar uma opinião própria sobre o assunto, deixando-se levar pela mídia tendenciosa e partidarista.

Procuro através deste trabalho fornecer dados consistentes, apesar de superficiais, que permitam aos não-muçulmanos uma melhor compreensão do modo de pensamento e vida dos muçulmanos, esclarecendo que estes têm seus próprios padrões e modelos religiosos e culturais, que determinam seu comportamento diferenciado.

Com a ajuda de Deus, o Altíssimo, este trabalho foi realizado e em Suas mãos está entregue. Possa Deus, o Altíssimo, validar nossos esforços pela Sua causa e perdoar todos os nossos pecados.

Aisha Aini, Ramadan de 1424/ novembro de 2003

Introdução

Significado do Islam

Islam é uma palavra árabe que significa literalmente paz, mas seu sentido é de submissão e obediência total à Vontade de Deus, o Altíssimo.

A Vontade de Deus é a Lei que regula e ordena todo universo, não há nada que exista que não esteja submetido a Deus, o Altíssimo. Das partículas subatômicas aos corpos celestes e tudo o que está entre eles, obedece infalivelmente à Vontade de seu Criador, louvado seja. Pode-se notar isso inclusive no homem, cujos processo fisiológicos ocorrem involuntariamente, totalmente obedientes à Vontade de Deus e independentes de sua vontade. Por isso o Islam é religião natural do homem e o caminho natural da Criação.

Quem segue o islamismo denomina-se muçulmano, que quer dizer: aquele que se submete à Vontade de Deus.

Apesar de se referir à religião universal, ensinada ao homem por todos os profetas que Deus, o Altíssimo, enviou à humanidade, usaremos os termos Islam e islamismo para nos referirmos a religião ensinada pelo Profeta Muhammad no século VIId.C.

Unicidade de Deus, louvado seja para iniciarmos a abordagem sobre o islamismo, é preciso estabelecer alguns conceitos básicos que permitam um melhor entendimento da matéria.

O primeiro conceito básico do Islam é a crença em Deus, o Altíssimo, como único Criador e Sustentador do Universo e da Vida, cuja Vontade rege e regula a existência e sob cujas ordens estão subordinadas todas as criaturas.

Deus, o Altíssimo, é infinitamente superior ao homem e à natureza, não existe nada que se Lhe assemelhe. Ele, o Altíssimo, está acima até mesmo de nossa concepção a Seu respeito, não sendo possível discutir sobre Sua Natureza:

Só conhecemos d'Ele, louvado seja, o que Ele mesmo nos revelou, não se formam opiniões a respeito de Deus, o Altíssimo, fora do que está escrito no Livro que Ele, louvado seja, revelou ao Seu Mensageiro.

Diz Deus, o Altíssimo, no Alcorão Sagrado:

“Ele é Deus, o Único
Deus, o Eterno e Absoluto
Jamais gerou ou foi gerado
E ninguém é comparável a Ele!” Alcorão, surata 112:1-4
 
A idéia da unicidade de Deus, o Altíssimo, é o pilar central do Islam, sintetizado pela frase “la illaha illa Allah” (não existe divindade afora Deus), primeiro ensinamento do Profeta Muhammad (D.a.p.) e primeira profissão de fé do islamismo.

Unidade da Verdade

O ocidente relativizou o conceito de verdade até que perdesse o sentido, pois não é coerente que várias verdades distintas e contraditórias coexistam específica e individualmente para cada ser humano.

Deus, o Altíssimo, expressa a unidade de Sua Criação através de uma única Verdade válida para todos, proporcionando o sentido de igualdade, já que o mesmo parâmetro é igualmente aplicável a todos.

Ver a Verdade como absoluta e imutável dá sentido à existência e a noção de estabilidade, promovendo um consenso geral que possibilita a ordem e a harmonia necessárias para o perfeito funcionamento do conjunto da Criação e sua continuidade. Várias verdades conflitantes limitam o entendimento, provocam disputa e cisão, corroborando para a degeneração do conjunto. Uma Verdade única é um princípio de coesão universal.

O fato natural de que a Verdade pode ser vista por vários ângulos produz uma certa diversidade limitada dentro de um consenso geral. É assim que a liberdade de pensamento do homem deve se manifestar: sem ferir a Verdade essencial que orienta toda a Criação.

O “pensamento ocidental” pluralizou a Verdade como se esta fosse criação do homem e variasse de tempos em tempos, acabando por perdê-la totalmente de vista. Mas o fato de se desconhecer a Verdade não significa que ela não exista: Deus, louvado seja, deu a Verdade a conhecer pelo homem através da Revelação.
 
Necessidade da Profecia

Os meios que o homem possui para conhecer a Verdade independe de Deus, o Altíssimo, são limitados e insuficientes, ele não é capaz de concluir sozinho qual é a forma adequada de conduta e não tem condição de estabelecer sozinho uma religião que reflita a Vontade de Deus e o aproxime de seu Criador, louvado seja.

Para que o homem pudesse adorá-Lo adequadamente, Deus, o Altíssimo, escolheu mensageiros entre os homens, aos quais revelou diretamente a Sua Vontade, com o objetivo de orientar a humanidade para um caminho de sucesso nesta vida e na Outra.

Esses homens escolhidos para receber a Revelação Divina chamam-se profetas, e foram líderes e guias para a humanidade, ensinando todos os homens a viver segundo a Vontade de Deus. É uma grande misericórdia de Deus, o Altíssimo, para com a humanidade revelar Sua Vontade, preservando o homem do erro inevitável que resulta das tentativas de descobri-La através de seus meios limitados.

Geralmente, Deus, o Altíssimo, revela Sua Mensagem através de palavras que, quando são registradas, formam livros. Adão foi o primeiro profeta, posteriormente, muitos outros vieram, como Noé, Abraão, Ismaíl, José, Jonas, Isaac, Jacó, entre outros, que não deixaram registro das revelações que receberam. A primeira revelação registrada que nos chegou, ainda que parcialmente, foi a recebida por Moisés, que a registrou na Torah e ensinou o judaísmo. A ele se seguiram Salomão, Davi, e Jesus, entre outros,cujas revelações também nos chegaram, porém não em sua íntegra. Depois veio Muhammad, o último profeta enviado à humanidade, que recebeu a revelação do Alcorão, livro que chegou aos nossos tempos em sua íntegra, sem nenhuma modificação, estando exatamente na forma em que foi revelado por Deus, o Altíssimo, no período entre 610 a 632 d.C.. O Alcorão possui as puras palavras de Deus, louvado seja, revitalizou a Mensagem, explicando a religião ao homem de forma clara, detalhada e completa, fazendo de Muhammad o selo dos profetas.

Desta forma, o Islam estabeleceu-se como a Mensagem definitiva, uma religião para toda a humanidade de todos os tempos, pois abrange e sintetiza todas as doutrinas que Deus, o Altíssimo, enviou a todos os Seus Mensageiros, desde Adão. É perfeito e completo, e servirá como orientação para toda a humanidade até o Dia do Juízo Final.
 
Alcorão e Sunnah

O islamismo tem como base duas fontes principais: o Alcorão e a Sunnah

Alcorão é o livro resultado das revelações que Deus, o Altíssimo, fez ao Profeta Muhammad. Deus, o Altíssimo, é o autor do Alcorão, que não contém nenhuma palavra escrita pelo homem. Ao Profeta só coube receber e divulgar a Mensagem. Contém diretrizes e orientações básicas para todos os assuntos inerentes ao homem, e as prescrições básicas do Islam.

Sunnah é o registro de tudo que o Profeta Muhammad fez e falou. Além de trazer as diretrizes específicas sobre como conduzir-se e como cumprir as prescrições de maneira adequada, constitui o exemplo de vida para os muçulmanos, serve de guia e orientação para que saibam com conduzir-se em todos os assuntos. Os relatos sobre a vida e atitudes do Profeta  chamam-se hadiss (tradições), foram meticulosamente compilados pelos sábios dos primeiros tempos do islamismo e configuram relatos historicamente comprovados da vida do Mensageiro de Deus.
 
Universalidade do Islam

O Islam não está associado a um povo ou época em particular, apesar de ter sido revelado na Arábia e em língua árabe, não está associado diretamente e nem se dirige apenas ao povo árabe: sua revelação é para toda humanidade de todos os tempos.

O Islam é maleável e se molda naturalmente às necessidades específicas de qualquer povo ou época sem alterar seus princípios fundamentais. O Islam nunca será ultrapassado, ou necessitará de qualquer reforma ou revisão. Este importante conceito é difícil de ser aceito pelo ocidente que só trabalha com coisas passageiras e em constante processo de elaboração e evolução.

O Islam se baseia na natureza humana, por isso é a religião natural do homem e será igualmente válida para todos os povos de todas as épocas sem sofrer alterações, exatamente com o foi revelado por Deus, o Altíssimo, ao Seu Mensageiro.
 
Praticabilidade do Islam

É preciso deixar clara a total praticabilidade do Islam, pois é tão comum no “pensamento ocidental” nos depararmos com belíssimas teorias impraticáveis que os muçulmanos são freqüentemente questionados a esse respeito, porque o ocidente olha o mundo através da mídia simplista sob dominação do materialismo.

O Profeta Muhammad seguiu os passos de Abraão, e praticou  o Islam na íntegra, para servir de exemplo para a Comunidade Muçulmana em todas as gerações. Depois dele, seus Companheiros(R.A.A) e sucessores praticaram integralmente o sistema islâmico de vida. Foi uma revolução na humanidade da época, que emergiu do obscurantismo para idade de ouro. Além de ter sido o maior do mundo, o Império Muçulmano que se sucedeu à Revelação era próspero econômica, social e culturalmente, cuja influência mudou os rumos da própria Europa, impulsionando-a das trevas da Idade Média para o Renascentismo.

 Hoje em dia, o Islam é integralmente praticado por milhares de pessoas: mesmo sem a representação de um estado formal unificado, a Comunidade Muçulmana continua preservando seus valores e identidade, fiel à Verdade que recebeu de Seu Senhor, o Altíssimo, através do Profeta Muhammad.

Minorias ou maiorias, representados formalmente por um Estado ou não, os muçulmanos continuam integralmente fiéis aos ensinamentos que orientam sua Comunidade, muitas vezes, aqueles que conservam sua tradição são vistos pelo ocidente fútil e materialista como radicais, o que é um grande equívoco, já que só existe um Islam, perfeito e puro, que deve ser integralmente praticado, seguido ao pé da letra até o Dia do Juízo Final, não é algo que se possa radicalizar ou flexibilizar, só existe um Islam, e os muçulmanos obedecem seus preceitos e orientações, pois reconhecem sua genialidade e perfeição.
 
A verdadeira igualdade

O Islam não diferencia os homens segundo nacionalidade, etnia, língua ou qualquer outro aspecto material, estabelecendo a verdadeira igualdade quando determina que não existe diferença entre os homens, que só são superiores uns aos outros pela piedade. Todos são iguais e irmãos, não existe discriminação ou preconceito entre os muçulmanos, todos são filhos de Adão, criaturas de Deus, o Altíssimo, submetidos igualmente à mesma e única Lei que governa todo o universo, sendo as prescrições e obrigações igualmente válidas para todos.
 
A visão islâmica do homem

Para o Islam, o homem nasce preparado para obedecer a Deus, o Altíssimo, e dotado de todas as faculdades e recursos para realizar as funções essenciais de sua existência e transformar o ambiente em que vive.

O homem é o auge da Criação, seu nível mais elaborado e evoluído, exerce um certo domínio sobre si mesmo e sobre o ambiente em que vive, pois possui inteligência e raciocínio. Ele concebe seu Criador, louvado seja, e é a coroação da Criação, a medida que se submete voluntariamente à Sua Vontade, o que todo o resto da Criação faz involuntariamente. Sua vida na terra não é depreciada, tem sentido e função, não é decaído e não precisa ser salvo, como dizem algumas religiões.

O Islam não aceita a expiação vicária e determina que cada um sofrerá as conseqüências apenas de suas próprias ações, não podendo uns pagarem pelos erros dos outros.

O homem nasce puro, como um livro em branco, e sua tendência natural é ser muçulmano. Os fatores que o afastam dessa tendência são diversos, mas o homem sempre se sentirá tentado a renunciar aos falsos valores e retornar para sua senda natural.
 
Como Muhammad é visto pelos muçulmanos

O Profeta Muhammad recebia a orientação direto de Deus, o Altíssimo, sabia qual a melhor maneira de conduzir-se em todos os assuntos, agradando a Deus, o Altíssimo, em todos os aspectos da vida.

O Profeta Muhammad praticou o Islam na íntegra, e discriminou detalhadamente o que foi vetado por Deus, louvado seja. Desta forma, os muçulmanos orientam seu comportamento pela prática de vida do Profeta.

Como sabia tudo o que Deus, o Altíssimo, queria para esta instância, obedecer a Muhammad, é obedecer a Deus, o Altíssimo, e desobedecê-lo é desobedecer a Deus, louvado seja.

Diz Deus, louvado seja, no Alcorão Sagrado:
 
“Realmente, tendes no Mensageiro de Deus um excelente exemplo para aqueles que têm esperança em Deus e no Dia do Juízo Final e invocam Deus com freqüência.” Alcorão, surata 33:21.

 
A religião como parâmetro para vida diária

A aparência dos muçulmanos, tanto na prática da religião, quanto na vida diária, reflete a crença e a doutrina islâmica, diferindo totalmente de uma simples questão cultural, isto é, um padrão de comportamento que se altera segundo a evolução da sociedade.

O padrão de conduta seguido pelos muçulmanos foi revelado por Deus,  louvado seja, como orientação para viver de acordo com Sua Vontade. Desta forma, a religião molda a sociedade e os valores, e não o contrário, pois a religião foi estabelecida através da Revelação Divina, e Sua Lei é imutável, só Ele, o Altíssimo, tem poder para alterá-la através de uma nova revelação, não cabe ao homem fazer mudanças na Lei de Deus, este tipo de atitude é uma ofensa a Deus, o Altíssimo, e certamente desestrutura e rompe a coesão da sociedade.

A religião será o padrão para conduta individual e coletiva, para cultura e arte,  todos os aspectos da vida do muçulmano estão de acordo com a crença e doutrina islâmica, fazendo de todos os seus atos, atos de adoração.

Observação: os nomes das cidades sagradas conhecidas como Meca e Medina, nós as transcrevemos como Makka e Madinah, por assim representarem melhor o original árabe, além do fato de serem nomes próprios que não devem ser mudados; da mesma forma, Muhammad é o nome do Profeta do Islam (D.a.p), conhecido em língua portuguesa como Maomé; quanto às abreviaturas que aparecem após os nomes das personalidades importantes do Islam, eis seus significados:

- após o nome do Profeta Muhammad: que Deus o abençoe e lhe dê paz

- após o nome dos Companheiros do Profeta: Deus esteja satisfeito com eles

- após o nome dos outros profetas: a paz esteja com eles

CAPÍTULO UM

Contexto Histórico

Arábia pré-islâmica

O Islam surgiu na península arábica, no século VIId.C., no vale do Hijaz, na cidade de Makka (situada no atual Reino da Arábia Saudita), quando Muhammad recebeu de Deus, o Altíssimo, a revelação do Alcorão Sagrado e a ordem para chamar toda humanidade para o monoteísmo puro.
Naquela época, o mundo submergia na ignorância.

A península arábica era centro do mundo conhecido. A ocidente estava o Império Romano, que apesar de já ter adotado o cristianismo como religião oficial, não se esforçava para aplicar seus conceitos, separando estado e religião: enquanto os Césares hereges viviam no luxo, a massa cristã era subjugada por uma política de exploração. No lado oriental (atual Irã e Iraque), havia o Império Persa, cujos imperadores eram conhecidos pelo luxo e ostentação em que viviam, enquanto a população passava fome. Os imperadores ateus subjugavam e exploravam um povo que, com o que sobrara do masdeísmo, era ignorante a ponto de adorar o fogo.
           
De modo geral, era um tempo de muita ignorância, a humanidade tinha perdido a orientação divina que havia recebido no passado, o materialismo dominava, assim como a superstição e a idolatria, além da imoralidade.

Na península arábica não havia unidade política, diversas tribos se digladiavam em intermináveis guerras, sendo quase impossível uma caravana comercial atravessar o deserto árabe sem ser atacada inúmeras vezes por diversos inimigos.

Cada tribo vivia por si e qualquer motivo torpe justificava uma declaração de guerra. Eventualmente, duas ou três tribos faziam pactos de paz para facilitar a passagem das caravanas, já que quase todos os árabes viviam do comércio, sendo a agricultura escassa na região.

A cidade de Makka era a mais importante da Arábia, pois lá estava o santuário da Caaba, primeiro local de culto a Deus, o Único, da humanidade, tendo sido erguida por Adão quando da criação do homem e posteriormente reconstruída por Abraão e seu filho Ismaíl (p.e.e.) dos quais descendem os árabes. Peregrinos vinham de todo deserto visitar o santuário, que era um centro de convergência dos árabes, um local de culto, onde a guerra e o derramamento de sangue eram proibidos. A tribo Coraix era a guardiã da Caaba, por isso a mais respeitada entre os árabes. Era responsável pela manutenção do santuário e pelo fornecimento de água aos peregrinos. Durante a peregrinação anual, os chefes das tribos de toda Arábia se reuniam, numa ótima oportunidade de ampliar laços, estabelecer pactos e realizar transações comerciais. A Caaba era o único consenso entre as fragmentadas tribos árabes.

Apesar de reconhecerem sua ascendência em Abraão, os árabes eram politeístas, ignorantes e supersticiosos, adoravam trezentos e sessenta deuses, um para cada dia do ano, assim como estátuas, o sol, a lua, as estrelas e até pedras. Não tinham o menor senso de moral, ficavam nus em público levianamente, gostavam muito de música, poesia, jogos de azar e bebidas alcoólicas, praticavam normalmente o adultério, enterravam as filhas vivas, tinham na guerra um passatempo, comiam todo tipo de animais, as mulheres mostravam seus atrativos despudoradamente.

Porém os árabes se destacavam de seus contemporâneos por suas virtudes naturais: de eloqüência incomparável, eram hábeis no uso da própria língua, realizavam festivais de poesia nos quais competiam entre si, propiciando uma evolução da arte poética além da evolução natural da própria língua árabe, de sonoridade e clareza espetaculares. Valorizavam a liberdade e a honra acima da própria vida, eram ótimos cavaleiros, ousados, francos, diretos, de memória excepcional, esforçados, firmes de propósito. Eram corajosos, cumpriam seus pactos, possuíam um forte espírito de devoção mesmo em seu culto equivocado, uniam-se contra um inimigo comum, além de serem extremamente resistentes, fortalecidos pelas adversidade da vida no deserto.

Foi neste ambiente que Muhammad recebeu a Profecia

Muhammad antes da revelação

Muhammad bin Abdullah nasceu em Makka no ano de 571d.C., órfão de pai, que morreu durante uma viagem comercial enquanto sua esposa Aminah estava grávida. Sua mãe morreu quando tinha seis anos de idade, na volta de uma viagem a Madinah, ficando o menino sob custódia do avô, Abdul Muttalib, líder de Coraix, que gostava muito do neto, acolhendo-o e encarregando-se de protegê-lo. Mas o avô era muito velho e só cuidou de Muhammad por dois anos, até sua morte, passando a custódia do menino para seu tio Abu Tálib, que apesar de ser pobre e ter muitos filhos, era nobre e hospitaleiro, sendo muito respeitado entre Coraix. Amava muito o sobrinho, que preferia aos próprios filhos. Cresceu com o tio, a quem muito se apegou.

Começou a trabalhar cedo para ajudar o tio, primeiro como pastor, ainda criança, e depois no comércio.

Aos vinte e quatro anos, passou a trabalhar para Khadija bint Khuwailid (R.A.A), que era viúva, uma das pessoas mais ricas de Makka, como homem de confiança, dirigindo seus negócios. Logo ela (D.e.s.e.) se apaixonou pelo rapaz que era conhecido como “al-amim”, o honesto, fiel, pelo reconhecido fato de ele nunca ter mentido, nem na vida pessoal, nem nas transações comerciais. Casaram-se quando ele tinha vinte e cinco anos, tendo ela (D.e.s.e.) quarenta. Ficaram casados por mais de vinte e cinco anos, enquanto ela (D.e.s.e.) viveu, e durante seu casamento com Khadija (D.e.s.e.) Muhammad não teve nenhuma outra esposa. Tiveram seis filhos, dois meninos que morreram ainda criança, e quatro meninas, das quais três morreram durante a vida do Profeta, só Fátima (D.e.s.e.) morreu depois dele, casou-se com Áli bin Abu Tálib (D.e.s.e.) e teve dois filhos.

Muhammad era conhecido por sua veracidade e bom senso, mas era um rapaz comum, que vivia do comércio, um árabe entre os árabes, iletrado como a maioria da população da época, porém tinha uma conduta reta e jamais adorou ídolos, o que o diferenciava de sua comunidade. Era sensível e inteligente, dentre seu povo, o homem de melhor conduta moral, sempre longe da maldade. Possuía qualidades distintas como a prudência, paciência, gratidão, justiça, humildade, castidade, generosidade, bravura; foi protegido por Deus, o Altíssimo, de todos os atos de ignorância.

Muhammad sempre teve uma mente contemplativa. Costumava passar dias em retiro, jejuando e meditando sobre a Verdade e o Criador do Universo, louvado seja. Quando tinha quarenta anos de idade, estava preparado para receber a revelação de Deus, o Altíssimo, e orientar a humanidade para o puro e verdadeiro culto a Deus, o Único, levando-a das trevas da ignorância para a luz da Verdade.

As primeira revelações

Durante um longo retiro numa caverna no monte Hirá, quarenta quilômetros ao norte de Makka, no mês de Ramadan, no ano de 610d.C., Muhammad recebeu a primeira revelação do Alcorão Sagrado. Estava isolado havia dias, quando o anjo Gabriel apareceu-lhe em forma humana e disse: “Leia!”. Ele respondeu: “Eu não sei ler”. Então, sentiu como se o anjo o abraçasse vigorosamente. Depois que o soltou, o anjo repetiu a ordem: “Leia!”, e mais uma vez, respondeu: “Eu não sei ler”. Novamente ele foi abraçado e liberto, e o anjo ordenou pela terceira vez: “Leia!”, ao que Muhammad perguntou: “O que devo ler?”. O anjo respondeu:

1.“Recita em nome do Teu Senhor, que criou,
2. Criou o homem de um coágulo.
3. Recita, e o Teu Senhor é o mais generoso.
4. Que ensinou através do cálamo (caneta, pena de escrever) .
5. Ensinou ao homem o que ele não sabia.” Alcorão, surata 96:1-5

Ele, gravou bem a mensagem em sua mente e voltou para casa, onde sua esposa o recebeu. Contou-lhe o que tinha acontecido e disse que receava estar ficando louco. Khadija (D.e.s.e.) disse: “Não tenha medo, esteja satisfeito e firme. Você se destaca entre seu povo, tem a boa conduta e excelentes qualidades que os outros não têm. Deve ter sido escolhido para algo bom.”

Passaram-se quarenta dias sem que nada acontecesse. Ele continuava freqüentando a caverna e ansiava por uma confirmação. Até que um dia, ao deixar a caverna, no retorno à casa, o Profeta ouviu uma voz vinda do céu. Olhou e viu o mesmo anjo em forma humana. Ficou com medo e correu para casa. Enrolou-se no manto e deitou-se na cama. Então recebeu a segunda revelação:

1.  "Ó tu, o enrolado no manto!
2.  Levanta-te e admoesta!
3.  E enaltece o teu Senhor!
4.  E purifica as tuas vestes!
5.  E foge da abominação !
6.  E não dês, visando receber mais (em troca),
7.  Mas persevera com paciência pela causa do Teu Senhor.” Alcorão, surata 74:1-7

A partir daí, durante os próximos vinte e três anos, ele recebeu de Deus, o Altíssimo, através do anjo Gabriel, a revelação do Alcorão Sagrado, livro que é orientação para a humanidade, detalhando a prática da religião e da vida.

Assim começou a missão do Profeta Muhammad de chamar a todos para o Islam. Começou pelas pessoas de sua casa: Khadija (D.e.s.e.) foi a primeira a converter-se. Depois seu primo, Áli bin Abu Tálib (D.e.s.e.), e seu filho de criação, Zaid bin Harissat (D.e.s.e.), um escravo liberto, em seguida, sua serva, herança de seu pai, Umm Aiman (D.e.s.e.).

Fora da casa do Profeta, o primeiro a se converter foi Abu Bakr (D.e.s.e.), que era rico e influente, através dele, muitos coraixitas se converteram, entre eles, Othmam bin Affan (D.e.s.e.).

Muhammad em Makka: treze primeiros anos da profecia

Muhammad proclamou o monoteísmo puro, extinguindo o politeísmo, a idolatria e a superstição, além de proibir a imoralidade e a maldade. Provocou uma revolução geral, talvez a maior já vista pela humanidade, tanto a nível religioso e cultural, quanto comportamental. Os árabes eram muito apegados à sua tradição e a religião de seus antepassados, por isso, Muhammad foi inicialmente rejeitado pelo seu povo.

Os coraixitas passaram a boicotar e perseguir Muhammad e seus partidários, os muçulmanos, praticando contra eles toda espécie de maldades: além de não poderem praticar sua religião em público (como rezar e recitar o Alcorão na Caaba), sofriam boicotes comerciais, tinham as casas invadidas e danificadas, eram humilhados publicamente. Até que a situação chegou no limite, e Deus permitiu que  e Muhammad e os muçulmanos migrassem de Makka.

A hégira e Muhammad em Madinah

Deus, o Altíssimo, deu ao Profeta a permissão para que migrasse, junto com os muçulmanos.

No ano de 622d.C., os muçulmanos saíram de Makka em pequenos grupos, estabelecendo-se em Madinah, quatrocentos quilômetros ao norte de Makka, onde já havia alguns convertidos. Este episódio é denominado hégira (migração).

A hégira marca o início do calendário islâmico e a grande virada dos muçulmanos: até então, eram uma minoria perseguida e oprimida, a partir de hégira, tornar-se-iam uma grande nação.

Muhammad foi acolhido em Madinah por seus habitantes recém convertidos, que estavam muito orgulhosos em receber o Mensageiro de Deus. Mas as perseguições dos maquenses não cessaram, pelo contrário, se intensificaram, obrigando os muçulmanos a articularem um exército para se defenderem dos coraixitas que chegaram a unir a Arábia contra Muhammad. Mas amparados por Deus, o Altíssimo, os muçulmanos se fortaleceram e por inúmeras vezes, derrotaram inimigos aparentemente muito mais poderosos que eles. Até hoje, as primeiras batalhas inspiram os muçulmanos, como exemplo de coragem, entrega e empenho pela causa de Deus.

Apesar das resistências, o número de muçulmanos só aumentava. O exército islâmico tornou-se lendário, pois mesmo em desvantagem de homens e equipamentos, derrotava todos os inimigos, mesmo quando toda Arábia esteve unida contra eles.

Muitos inimigos do Islam se converteram, fortalecendo ainda mais o exército de Deus.

No ano de 630d.C., ano 8 da hégira, os muçulmanos conquistaram Makka sem resistência, sem derramamento de sangue, eram tão fortes que os maquenses preferiram não lutar, entregaram a cidade e houve conversões em massa . Muhammad purificou a Caaba, que depois de quebradas todas as estátuas que lá estavam, voltou a ser o centro do monoteísmo, santuário sagrado de culto exclusivo a Deus Único, louvado seja.

Mesmo depois de conquistar Makka, Muhammad continuou a viver em Madinah até sua morte, pois foi a cidade que o acolheu quando todos estavam contra ele.

A transformação dos árabes

Depois de muitas perseguições e batalhas, o Islam saiu vitorioso. Dos inimigos do Islam, os que não foram mortos, acabaram por se converter, assim como todas as tribos do deserto árabe.

Muhammad uniu as tribos árabes sob seu comando, num consenso geral. Aqueles homens brutos, ignorantes, supersticiosos e indecentes que brigavam entre si, tornaram-se, em menos de vinte e cinco anos, crentes, puros, obedientes, honestos, castos e educados, e as fragmentárias tribos se uniram formando uma grande nação. Assassinos fratricidas formaram uma verdadeira fraternidade. Foi a maior revolução já vista pela humanidade. Foi o fim do tempo da ignorância .

Quando morreu, em 632d.C., ano 11 da hégira, Muhammad era governador da Arábia unida sob a bandeira do Islam, pelo consenso geral de sua gente.

Nesta época, ele preparou o espírito dos muçulmanos para o encontro com os romanos e com os persas. Morreu com sessenta e três anos, no ano onze da hégira, deixou Abu Bakr(D.e.s.e.) como seu sucessor e líder do povo muçulmano, iniciando o califado dos rashidum (os corretamente orientados).

O Califado: a formação do Império

Abu Bakr(D.e.s.e.) foi o primeiro Califa, sucedeu o Profeta na liderança da comunidade, a partir de seu exemplo, jamais tendo reinvidicado a sucessão na profecia.

Durante o califado de Abu Bakr(D.e.s.e.), de 632 a 634d.C., consolidou-se a unificação da Arábia e houve um relevante fortalecimento do exército.

Seu sucessor foi Ûmar bin al-Khattab(D.e.s.e.) que governou de 634 a 644d.C., durante seu governo se deu a primeira onda de expansão, tendo sido conquistadas as melhores províncias do Império Romano: Síria (634-640d.C.), Jerusalém (638d.C.), Egito (639-642d.C.). Os muçulmanos derrotaram os persas no Irã-Iraque entre 636 e 640d.C., derrubando definitivamente o Império Persa em 642 d.C.

Seu sucessor foi Othman bin Affan(D.e.s.e.). Durante seu governo (644-656d.C.) ocorreram incursões pelo norte da África, chegando à Tunísia em 647d.C.

Seu sucessor foi Áli bin Abu Tálib(D.e.s.e.), que governou de 656 a 661 d.C, período em que se deram algumas disputas internas, estagnando a primeira onda de conquistas.

Com seu assassinato em 661d.C. termina a fase dos “corretamente orientados”.

O Califado foi uma instituição religiosa, sua natureza política era uma conseqüência da necessidade de organizar uma comunidade tão plural. Os Califas eram os condutores das orações e pregadores, assim como juizes, ministros e generais. O poder espiritual e temporal eram representados pelo Califa, que se cercava de um grupo de conselheiros com os quais agia em consulta, estes foram os discípulos ideais do Profeta.

O Islam deve ser encarado a exemplo dos seus primeiros tempos, levando em conta a conduta do Profeta e dos quatro primeiros Califas(D.e.s.e.). Eles praticaram um modo de vida perfeito prescrito pelo Islam e provaram a integral praticabilidade do sistema islâmico de religião, pensamento e vida. Durante aqueles tempos, a lei islâmica era corretamente aplicada, o povo era livre, as mulheres tinham seus direitos assegurados, a sociedade se desenvolvia material, cultural e espiritualmente, orientada pela Lei de Deus. O Profeta e os quatro primeiros Califas(D.e.s.e.) conseguiram sucessos que mudaram o rumo da história e do pensamento humanos: provaram como é possível a transformação de um povo através da integral aplicação da Lei Divina, a maneira correta de aplicar esta Lei e de viver segundo o Alcorão e a Sunnah. É neles que os muçulmanos se espelham, serão o exemplo da Comunidade Muçulmana até o Dia do Juízo Final.

O Império Muçulmano

Depois dos quatro primeiros Califas(D.e.s.e.), nenhum líder que os sucedeu (com algumas exceções) possuiu o padrão de elevada moral e sabedoria, assim como grau de virtude exigido dos líderes muçulmanos, necessários para bem conduzir a comunidade. Lentamente, política e religião foram se separando, o que foi um retrocesso evidente. Apesar disso, o Império Muçulmano teria seus dias de glória.

Até Áli(D.e.s.e.) o Califa era escolhido por um seleto grupo de eleitores e sua escolha era ratificada pelo povo. A partir de Moawiya, que o sucedeu, o posto passou a ser hereditário.

O Califado Omíada foi de 661 a 750 d.C.. A capital foi transferida de Madinah para Damasco. Apesar da falta de orientação espiritual dos governantes o Império se expandiu e prosperou: entre 670 a 700 d.C., todo o norte da África foi conquistado; em 711 d.C. as tropas muçulmanas desembarcaram na Espanha, e a leste chegaram ao Paquistão; a China Ocidental foi ocupada em 750 d.C..

Os Omíadas foram derrubados por uma revolta popular, iniciando o Califado Abácida, que foi de 750 a 1258 d.C.. A capital foi transferida de Damasco para Baghdad.

Os séculos IX e X foram em Baghdad a idade do ouro das ciências, das letras e das artes. O Império Muçulmano tornou-se o maior do mundo, indo do oeste da Índia até a Espanha pelo norte da África, englobando todo o Oriente Médio e parte da Ásia Central. O Império era rico e próspero, não havia pobreza, e o ideal de igualdade se manifestava através da unidade de diversos povos, raças e etnias, unidos fraternalmente pela religião em comum, concretizando o ideal de globalização: quando as fronteiras dos países são abolidas dentro de um estado unificado de poder centralizado, porém com justiça social, igualdade e prosperidade para todos.

As invasões dos tártaros (séc. XIII) começaram a minar essa unidade. Com a expansão européia pós-renascentista (séc. XV e XVI) a unidade foi rompida e o Império sucumbiu.

Os turcos retomaram parte desta unidade com o Império Turco Otomano, que só sucumbiu definitivamente com a dominação do mundo pela Europa no fim do séc. XIX e início do séc. XX, encontrando-se hoje o mundo islâmico fragmentado e muitos países sob forte influência ocidental, longe do ideal islâmico de unidade e pureza cultural.

O Legado do Império Muçulmano

O Império Muçulmano durou cerca de oito séculos, período durante o qual houve uma grande evolução científica e cultural. Os muçulmanos eram pesquisadores, cientistas e pensadores. Houve um grande desenvolvimento das ciências médicas e da matemática, além das letras, artes e arquitetura.
Esse desenvolvimento influenciou o pensamento europeu no surgimento do Renascentismo.

Alguns exemplos dos legados do Império Muçulmano para o ocidente:

- na matemática: algarismos arábicos facilitaram o cálculo; introdução do conceito do “zero”; fundação da álgebra por al Khawarizni, no séc. IX.

- na medicina: pesquisas em diversos campos, invenção e uso da vacina, noções de higiene.
- nas artes: arcos ogivais, sem os quais as construções góticas não seriam possíveis.
- na astronomia: invenção e uso do astrolábio.
- tecnologia naval que possibilitou à Europa lançar-se às grandes navegações marítimas.
 
Conclusão

Esse foi o movimento desencadeado por Muhammad ao receber a Revelação. Orientada pelo Islam, a humanidade emergiu da idade das trevas para sua idade de ouro, num movimento de mudança tão profundo que jamais se repetiu.

O Islam continua servindo como guia e orientação para a humanidade e, como outrora, é a saída para o torpor espiritual e moral em que nos encontramos atualmente.

A humanidade de hoje é rica materialmente, mas seus valores degradam o ser humano e são decadentes. Certamente este é o caminho da destruição. Aí está o Islam, com suas fontes e referências intactas, pronto para orientar a humanidade pelo caminho da harmonia entre a religião e os outros aspectos da vida, revertendo esse processo de decadência para uma direção evolutiva. Como outrora se provou, o Islam é a força capaz de levar a humanidade das trevas da ignorância para a luz do verdadeiro progresso.