Depoimento de uma Irmã Envolvida em Mutaa

Eu tinha catorze anos e o relacionamento com meus pais estava no limite, como acontece com qualquer adolescente. Comecei a me interessar pelos rapazes. Eu sentia que ninguém me entendia, nem mesmo minhas amigas. E, principalmente, não me sentia bonita com meu aparelho nos dentes.

Tudo mudou quando o conheci.  Era fascinante saber que um colega estudante se importava tanto comigo. Ele era uma pessoa maravilhosa. Tratava-me como uma rainha, e logo nos tornamos melhores amigos. Eu sentia que poderia contar qualquer coisa para ele. Conforme nossa amizade progredia, falávamos sobre diferentes tópicos, incluindo religião. Seu credo era diferente do meu; ele era Shiaa enquanto eu era Sunni. Nós sempre discutíamos sobre as diferenças. Ele sabia fazer as coisas parecerem melhores do que são. Eu logo fiquei muito confusa.

Um dia ele mencionou a idéia do Mutaa. Ele me disse que era um tipo de casamento temporário, que era halal mesmo nos livros Sunni. De início eu não acreditei, mas ele usou referências como Bukhari e Muslim. Eu confiei em sua palavra e, antes que eu me desse conta, já estava metida em uma grande confusão. Eu estive em Mut'a por quatro anos. Com o passar do tempo, percebi que perdi minha honra e dignidade para alguém que fez o mesmo com muitas outras garotas. Allah me ajudou a enxergar e compreender no que eu entrei. Mas, naquele momento, eu estava a ponto de mudar minha crença e tornar-me uma Shiaa. Só que resolvi realmente pesquisar a verdade. Como não é possível eu mostrar toda a pesquisa, vou tentar fazer um resumo do conceito de Mut'a.

Eu espero informar e educar as pessoas sobre a “doença” da Mut'a, que está se alastrando rapidamente na nossa comunidade. Certos indivíduos Shia têm por objetivo fazer Mut'a com garotas inocentes, que não possuem conhecimento religioso e experiência de vida. Eles as convencem com suas crenças, e criam confusão em suas mentes. Eu imploro a cada irmã, irmão, pai, mãe e amigo que observe com cuidado aquelas que ama e se assegure que elas não se tornem vítimas do Mut’a.

Mut'a é uma forma de casamento temporário, onde um homem pode se casar com uma mulher por um determinado período e mediante uma certa quantia (mahr), de comum acordo. No Mut'a, o marido não é financeiramente responsável pela esposa. Não há um conjunto de regras para esse tipo de casamento, Segundo os Shias. De acordo com a crença Shia, não são necessárias testemunhas ou a permissão de um guardião (o pai Sunni não aceita, pois ele é um ato ilícito), e não há limite quanto ao número de Mut'a que um homem pode estabelecer.

O período de tempo pode ser tão breve quanto uma hora ou tão longo quanto sessenta anos. E mais: um homem com um casamento permanente pode fazer quantos Mut'a ele tiver vontade, mesmo com uma mulher casada. Isso se parece muito mesmo com prostituição.

Na história do Islam, o Profeta permitiu o  Mut'a por duas vezes. Da primeira vez o Profeta o permitiu por três dias, durante a batalha de Khaibar, e após três das se tornou haram . Certa vez Ali discutiu com um homem que acreditava na permissibilidade do  Mut'a e lhe disse que o Profeta tornou o Mutaa e a carne de burro haram no dia de Khaibar (Bukhari vol. 7, pg. 287 e vol. 4 pg. 134). Esse hadiss também pode ser encontrado nos livros Shia de hadiss, que eu mencionarei adiante. A segunda vez que o Profeta o permitiu foi na conquista de Mecca, por três dias, e então ele o tornou haram novamente até o Dia do Julgamento (Muslim vol. 4 pg. 133). Vejam bem, a prática do Mut'a tornou-se haram até o Dia do Julgamento. Isso é confirmado pelos hadiss dos seguintes livros: Imam Ahmad Musnad vol. 16 pg. 192-193, Muslim vol. 4, pg. 132, Bayhaki vol. 7 pg. 293-294. Então houve um período em que o Mut'a foi halal (licito). Por isso podemos encontrar hadiss que dizem que é halal. Mas os últimos hadiss, que seguem os comandos finais de jurisprudência colocados pelo Profeta, têm precedência sobre os hadiss anteriores.

Noventa e nove por cento dos companheiros seguiram essa opinião, mas havia um por cento que acreditava que Mut'a poderia ser feito em casos de extrema necessidade nas terras em guerra. Esse um por cento se dividia em dois grupos. Um dizia que era permitido com a autorização do Califa, e o outro dizia que tal autorização não era necessária. Aqueles que não acreditavam na necessidade da permissão do Califa diziam que tinha sido Umar(R) que tornou o Mut’a haram. A evidência que eles apresentam se baseia em uma opinião de um companheiro chamado Ibn Abbas. As pessoas abusavam dessa opinião de Ibn Abbas(R) até que ele se explicou dizendo: “Wallahi, eu não quis dizer o que eles dizem! O que eu disse foi que seria parecido com o que Allah comandou ao permitir o consumo da carne de animais mortos e de porco em caso de extrema necessidade”. Isso ocorreu durante a época de Umar, quando as pessoas abusaram da lei da necessidade, seguindo a interpretação de uma minoria. Por fim, Umar(R) declarou e ensinou que é haram quando uma senhora veio até ele reclamando sobre seu marido em Mut'a, que era casado permanentemente com outra, que não queria se responsabilizar pela criança. Umar compreendeu como a sociedade tinha se tornado corrupta, com condições tão similares ao adultério. Assim ele teve que ensinar o povo e tornar Mut'a haram mesmo no caso da opinião da minoria de um por cento.

Os próprios Shiaa têm um hadiss narrado por Ali (r.a.a) que relata que o Profeta tornou o Mut'a haram no dia de Khaibar (Livro do Tahdeeb: vol. 7, pg. 251, rewaya 10). O autor afirma que Ali mentiu com o propósito de Taqiya [1]. No Livro de Istebsar: vol. 3, pg. 142, rewaya 5, há uma declaração de Ali que Mut'a é haram. Novamente acusam Ali de mentir por Taqiya.

Com a confusão dos livros Shias a respeito de Mut'a, e sendo considerado haram entre os Sunnis, deveria ser difícil alguém se convencer que está realmente casando de modo halal e em nome de Allah ao se engajar em Mut’a.

Se o Mut'a não é uma desculpa para satisfazer a própria luxúria, então o que é?! Parece ser a solução mais fácil para o adultério. Se o Mut'a realmente pudesse ser feito em caso de necessidade, então porque uma pessoa casada pode fazer Mut'a? E ainda, se alguém não pode se casar por falta de meios financeiros, como pode ser responsável por sustentar a criança se não consegue suportar a esposa? E como ele vai ter certeza que acriança e realmente dele e não de outro?

Os Shia também usam o Qur‘an, Surah 4 ayah 24, como uma referência de apoio ao Mut'a. Eles usam esse Ayah sem considerarem os versículos que o precedem e que o seguem. Um Ayah não pode ser considerado isolado. Um bom exemplo disso é a Surah 107 ayah 4 "Ai dos adoradores (…)". Se nós tomarmos esse Ayah sózinho, vamos entender que Allah está irado com os seus adoradores, mas se lermos adiante, o versículo 5 diz "(...) que são negligentes em suas preces." Isso dá um melhor entendimento do que Allah está nos dizendo. E se lermos até o fim, entenderemos melhor ainda o que Allah tenta nos dizer.

Mas o Shia olha apenas para a surah 4 Ayah 24. Quando Allah diz "Exceto por elas, todas as demais são lícitas, desde que as procurem (em casamento) com presentes de sua propriedade, desejando a castidade e não a luxúria". Nós tomamos em consideração Ayah anterior, que descreve todas as mulheres proibidas para o casamento. Surah 4 Ayah 23, “Estão proibidas para você (em casamento) suas mães, filhas, irmãs; e as irmãs de seu pai e de sua mãe". Assim, quando Allah diz no Ayah 24 que todas as demais são lícitas nós entendemos que todas as mulheres menos as citadas são lícitas.

O Ayah continua "se vocês se deleitam com elas, dêem-lhes seus dotes (ao menos) como prescrito". Os Shia dizem que o Mut'a é esse casamento-prazeroso ao qual Allah está se referindo. Para termos um entendimento claro de como traduzir esse Ayah, precisamos saber que esse é um shariah hokoom (julgamento) de Allah sobre o pagamento do dote.

Se um homem casa-se com uma mulher e então se divorcia dela, há quarto cenários possíveis quanto ao dote. São eles:

1) O homem não usufrui de sua esposa (o casamento não se consuma) e não determina um dote.

2) O homem não usufrui de sua esposa (o casamento não se consuma), mas determina um dote.

3) O homem usufrui de sua esposa (o casamento se consuma) mas não determina um dote.

4) O homem usufrui de sua esposa (o casamento se consuma) mas não paga o dote devido.

O primeiro hokoom está na surah 2, versículo 236, "Não há censura em você se divorciar de uma mulher antes do casamento ser consumado ou do dote ser prescrito; mas dê-lhes um presente apropriado." Há também um hadiss em que o Profeta divorcia-se de uma mulher antes de tocá-la ou determinar um dote. Ele lhe deu alguns presentes (2 pares de tecido), e então a libertou do compromisso.

O Segundo hokoom está na surah 2 versículo 237, "E se vocês se divorciarem delas antes da consumação mas após a fixação de um dote, então metade do dote é devido a elas.” O terceiro hokom está na surah 4, versículo 4: “E dê-lhes seu dote como uma obrigação”. Em árabe a palavra que traduzimos como obrigação pode ser traduzida mais precisamente como “obrigação padrão”. Assim o homem deve pagar o que a sociedade muçulmana tornou padrão.

O último hukom é que se você determinou um mahr (dote) e consumou o casamento, você deverá pagar, haja divórcio ou não.

Esse hokoom está na Surah 4, Ayah 24: "Se você usufruiu delas então dê-lhes (ao menos) o dote conforme prescrito; mas se após a determinação do dote vocês concordarem mutuamente em mudá-lo, não há culpa em você, e Allah é Onisciente, O Sábio." Para os Shia, é lei que se pague o dote antes do usufruto ou não haverá Mut'a. Este Ayah está falando sobre se chegar a um acordo e então discutir o pagamento do dote após estar tudo acertado ou pagar após a consumação. Então podemos ver que o Mut'a não se encaixa.

Há outras diferenças. Se você continuar lendo o Ayah 5 ele diz: "Se algum de vocês não tiver recursos para se casar com mulheres crentes e livres, então podem se casar com as mulheres crentes dentre as que sua mão direita possui e Allah tem pleno conhecimento de sua fé. Vocês são um do outro: case-se com elas com a permissão de seus donos e dêem-lhes seus dotes, conforme o razoável: elas devem ser castas e não lascivas”. Este Ayah diz que é necessária a permissão de seus guardiões, e o Ayah continua nos ensinando sobre as diferenças legais entre se casar com uma crente livre e uma que a mão direita possui. No final é dito que mesmo se casar com uma das mulheres que a mão direita possui não é do agrado de Allah se a pessoa o fizer sem ser por estar em grande risco de cometer um pecado maior. É então que Allah permitiu o casamento com esse grupo, mas sugerindo que é melhor ter paciência e auto-controle. A mesma orientação pode ser lida na Surah 23, Ayah 5-7. Allah nos ensina que há somente dois tipos de casamento permitidos: o normal e aquele com as que a mão direita possui. Quem quer que vá além disso está excedendo os limites do que  Allah diz e torna-se um transgressor. Como os Shiaa podem encaixar o Mut'a no Ayah quando ele claramente limita o casamento a esses dois tipos?

Também no Qur´an, podemos ver que sempre que Allah menciona casamento Ele também nos ensina sobre divórcio. Quando um homem se casa com uma mulher casta e quer deixá-la, primeiro ele se divorcia. Isso pode ser visto nas seguintes Surahs e Ayahs: 2:231, 2:232, 2:236, 2:37, 33:49, 65:1,66:5

No Mut'a não há divórcio; uma vez que você paga determinada quantia em dinheiro e o tempo fixado se esgota, não há mais direitos, deveres, leis de herança ou processo de divórcio. A única lei é que a mulher deve esperar por um período de 45 dias antes de entrar em outro Mut'a, enquanto o homem pode firmar outro de imediato, mesmo que esteja verdadeiramente casado e/ou envolvido em outros Mut'a. Isso vai contra o que Allah determinou para o casamento no Qur´an. Na Surah 2, Ayah 228 Allah diz: “As mulheres divorciadas devem esperar por três meses e não é lícito para elas esconder o que Allah criou em seus ventres. Se elas têm fé em Allah e no último dia." No Mutaa ela pode estar grávida de seu primeiro marido em Mut'a e se casar com seu segundo marido em  Mut'a ou com um permanente. No livro de Mustadrak-Alwasa il (Livro Shia hadiss autênticos) vol. 7, livro 3 pg. 506 rewayah 8762, é colocado que o Profeta  disse “que quem quer que não tenha capacidade para se casar, que jejue, porque a proteção de minha Ummah é o jejum”. Também em Beharul-Alanwaar (Livro Shia de hadiss, vol.14 pg. 327 rewayah 50:21) é relatado que o Imam Ali disse “e procure proteção do desejo pelas mulheres no jejum”. Qual a necessidade do jejum se Mut'a é OK ? É óbvio que é contraditório. Eu espero e oro para que nós levemos a sério esse assunto.

A cada dia mais e mais moças de nossa comunidade caem vítimas dessa idéia apresentada por indivíduos Shiaa. Essas moças estão desamparadas e precisando de alguma ajuda, principalmente de seus pais. Por favor, ensinem e informem uns aos outros sobre a idéia de Mutaa, e nossas crenças quanto ao assunto. Por favor façam-no pela honra e dignidade do Islam e pelo amor de Allah!


 [1]Taqiya” significa “dissimulação”. É um conceito legítimo no Islã quando se apresentam situações de extrema ameaça à segurança própria ou dos demais. Mas não é difícil imaginar como pode ser invocado de modo abusivo, como no caso tratado aqui. voltar