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Dr.Sherif Abdel Azeem Mohammed
Há 5 anos atrás, li no Toronto Star,
edição de 3.7.90, um artigo intitulado "O Islam não está sozinho nas
doutrinas patriarcais", de Gwyne Dyer. O artigo descrevia as reações
furiosas das participantes de uma conferência sobre mulheres e
poder, realizada em Montreal, aos comentários da famosa feminista
egípcia, Dra. Nawal Saadawi.
Suas declarações "politicamente incorretas", incluíam: "os elementos
mais restritivos em relação às mulheres, podem ser encontrados,
primeiro no Judaísmo, Velho Testamento, depois no Cristianismo e,
finalmente, no Alcorão"; "todas as religiões são patriarcais porque
elas provêm de sociedades patriarcais"; e "o véu das mulheres não é
uma prática especificamente islâmica mas, sim, um herança cultural
antiga, com analogia nas religiões irmãs". As participantes não
puderam ficar sentadas, enquanto suas crenças estavam sendo
igualadas ao Islam. Assim, a Dra. Saadawi recebeu uma avalanche de
críticas. "Os comentários da Dra. Saadawi eram inaceitáveis. Suas
respostas revelavam uma falta de compreensão acerca da fé das outras
pessoas" , declarou Bernice Dubois, do Movimento Mundial de Mães.
"Eu tenho que protestar", disse a participante Alice Shalvi, da
televisão feminina de Israel, "não existe o conceito do véu no
Judaísmo". O artigo atribuía esses furiosos protestos a uma forte
tendência no Ocidente de culpar o Islam por práticas que são muito
mais uma parte da própria herança cultural do Ocidente.
"As feministas cristãs e judias não irão se sentar para discutir, em
igualdade de condições, com as más muçulmanas", escreveu Gwyne Dyer.
Não me surpreendeu que as participantes da conferência tivessem uma
tal visão negativa do Islam, especialmente por envolver questões
femininas. Acredita-se, no Ocidente, que o Islam é o símbolo da
subordinação das mulheres por excelência. A fim de compreendermos
como está enraizada tal crença, basta mencionar que o Ministro da
Educação da França, a terra de Voltaire, recentemente ordenou a
expulsão das escolas francesas, de todas as jovens muçulmanas que
vestissem o Hijab! Na França é negado a uma jovem muçulmana, que usa
um lenço, o direito à educação, enquanto que estudantes católicos
podem usar uma cruz ou um estudante judeu pode usar o solidéu. A
cena de policiais franceses, impedindo jovens muçulmanas com as
cabeças cobertas de entrarem no colégio, é inesquecível. Este fato
nos traz à memória outra cena igualmente triste, a do Governador
George Wallace, do Alabama, em l962, em pé, defronte ao portão da
escola, tentando bloquear a entrada de estudantes negros, a fim de
impedir a desagregação das escolas do Alabama. A diferença entre as
duas cenas é que os estudantes negros tiveram a simpatia de muitas
pessoas nos EUA e no mundo inteiro. O presidente Kennedy enviou a
Guarda Nacional Americana para forçar a entrada dos estudantes
negros. As moças muçulmanas, por outro lado, não receberam a ajuda
de ninguém. Sua causa parece ter muito pouca simpatia, tanto dentro
da França como fora. A razão é a incompreensão e o medo de tudo que
seja islâmico no mundo atual.
O que mais me intrigou sobre a conferência de Montreal foi uma
questão: As declarações feitas por Saadawi, ou qualquer de suas
críticas, são verdadeiras? Em outras palavras, o Judaísmo, o
Cristianismo e o Islam têm o mesmo conceito sobre as mulheres? São
tais conceitos diferentes? O Judaísmo e o Cristianismo, na verdade,
oferecem às mulheres um tratamento melhor do que o Islam? Qual é a
verdade?
Não é tarefa fácil pesquisar e encontrar respostas para estas
questões difíceis. A primeira dificuldade é que a pessoa tem que ser
honesta e objetiva ou, pelo menos, fazer o máximo para o ser. Isto é
o que o Islam ensina. O Alcorão instruiu os muçulmanos a dizerem a
verdade, mesmo que aqueles que estejam próximos a eles não gostem
disso:
"... e se falardes, sede justo, mesmo que se refira a um parente
próximo" (6:152);
"Ó aqueles que creram, erijam a justiça na partilha, como
testemunhas de Alá, ainda que contra vós mesmos, ou seus pais ou
seus parentes, ..."
A outra grande dificuldade é o fôlego irresistível do assunto. Por
essa razão, durante os últimos anos, passei muitas horas lendo a
Bíblia, a Enciclopédia da Religião e a Enciclopédia Judaica, na
busca de respostas. Também li muitos livros que discutem a posição
das mulheres nas diferentes religiões, escritos por exegetas,
apologistas e críticos. O material apresentado nos capítulos
seguintes representa as descobertas importantes dessa humilde
pesquisa. Eu não sou objetivo, absolutamente. Isto está além da
minha limitada capacidade. Tudo que posso dizer é que tentei,
através dessa pesquisa, me aproximar do ideal alcorânico de "falar
imparcialmente".
Gostaria de enfatizar nesta introdução, que minha proposta para este
estudo não é denegrir o Judaísmo ou o Cristianismo. Como muçulmanos,
acreditamos nas origens divinas de ambos. Ninguém pode ser muçulmano
sem acreditar em Moisés e Jesus como grandes profetas de Deus. Meu
intento é somente afirmar o Islam e pagar um tributo para a última
mensagem verdadeira de Deus para a raça humana. Também gostaria de
enfatizar que me preocupei somente com a Doutrina, isto é, minha
preocupação é, principalmente, a posição das mulheres nas três
religiões, como aparece em suas fontes originais, e não como é
praticada por seus milhões de seguidores no mundo hoje. Por causa
disso, a maior parte das evidências citadas vêm do Alcorão, dos
ditos do Profeta Muhammad ,
da Bíblia, do Talmud e dos ditos de alguns dos mais influentes
padres da Igreja, cujos pontos de vista contribuíram imensamente
para definir e desenhar o Cristianismo. Muitas pessoas confundem
cultura com religião, e outras não sabem o que seus livros
religiosos dizem, e outras ainda, sequer se preocupam com disso.
1. O ERRO DE EVA?
As três religiões concordam com um fato básico: Tanto as mulheres
como os homens foram criados por Deus, o Criador de todo o Universo.
Contudo, a divergência começa logo após a criação do primeiro homem,
Adão, e da primeira mulher, Eva. A concepção judaico-cristã da
criação de Adão e Eva está narrada detalhadamente em (Gênesis,
2:4-3:24). Lá está dito que Deus proibiu o homem de comer do fruto
da árvore proibida. O Senhor Deus deu ao homem uma ordem, dizendo:
"Podes comer de todas as árvores do jardim. 17 Mas, da árvore do
conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque no dia em que o
fizeres serás condenado a morrer". Também deu a mesma ordem à
mulher. A serpente seduziu Eva para que o comesse. E a mulher
respondeu à serpente: "Do fruto das árvores do jardim, Deus nos
disse 'não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário
morrereis." A serpente replicou à mulher: "De modo algum morrereis 5
É que Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se
abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal". E Eva,
por sua vez, seduziu Adão para comer com ela. (Gênesis 6) A mulher
notou que era tentador comer da árvore, pois era atraente aos olhos
e desejável para se alcançar inteligência. Colheu o fruto, comeu-o e
deu também ao marido, que estava junto. E ele comeu. E quando Deus
repreendeu Adão pelo que ele havia feito, ele colocou a culpa em
Eva. (Gênesis 11) Disse-lhe Deus: "E quem te disse que estavas nu?
Então, comeste da árvore, de cujo fruto te proibi?"12 E o homem
disse: "A mulher que me destes por companheira, foi ela que me fez
provar do fruto da árvore e eu o comi". Conseqüentemente, Deus disse
a Eva Gênesis 16: "Multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez. Em
meio a dores darás à luz os filhos, a paixão arrastar-te-á para o
marido e ele te dominará". Para Adão Ele disse (Gênesis 17) "Porque
ouviste a voz da mulher e comeste da árvore, cujo fruto te proibi
comer, amaldiçoada será a terra por tua causa. Com fadiga tirarás
dela o alimento durante toda a vida. 18 Produzirá para ti espinhos e
abrolhos e tu comerás das ervas do campo. 19 Comerás o pão com o
suor do rosto, até voltares à terra, de onde foste tirado. Pois tu
és pó e ao pó hás de voltar".
O conceito islâmico da primeira criação é encontrado em muitas
passagens do Alcorão, como por exemplo:
"E dissemos ó! Adão, mora tu e tua zauja (mistura companheira) no
Paraíso e comam dele prosperamente onde lhes aprouver, e não vos
aproximeis desta árvore e então sereis dos injustos." (Alcorão
2:35).
Então, Satanás sussurrou para eles, a fim de revelar a ambos o que
lhes havia sido ocultado de SAUÉTIHIMÉ (suas ambas e outras
igualmente presentes, invisíveis, não bons atributos) e, então,
disse: "Não vos proibiu a ambos, Vosso Senhor, desta árvore senão de
seres ambos convertidos em anjos ou de serem ambos dentre os
imortais". E jurou-lhes que era um conselheiro sincero. Assim, a
ambos, DALLÉHUMÉ (indicou a ambos em confiança, porém, com enganos,
arrancando-os e enviando-os para baixo, no que intencionou). Quando
ambos provaram da árvore, divisaram ambos suas SAUÉTIHIMÉ e
começaram a cobrir-se com folhas do paraíso. E seu Senhor chamou a
ambos: "Eu não vos havia proibido daquela árvore e dito a ambos que
Satanás é vosso inimigo declarado?" Eles disseram: "Senhor Nosso.
Nós injustiçamos a nós mesmos e se Tu não nos perdoares, Te
apiedares de nós, certamente estaremos dentre os perdedores."
(7:20:23).
Um exame mais cuidadoso dos dois relatos sobre a Criação, revela
algumas diferenças essenciais. O Alcorão, ao contrário da Bíblia,
coloca a culpa igualmente em Adão e Eva pelo erro de ambos. Não há
no Alcorão a mais leve sugestão de que Eva tentou Adão, ou mesmo que
ela tenha comido do fruto antes dele. Eva, no Alcorão, não é
insinuante, sedutora ou vencida. Além do mais, Eva não pode ser
culpada pelas dores do parto. Deus, de acordo com o Alcorão, não
pune ninguém pelas faltas do outro. Ambos, Adão e Eva, cometeram um
pecado e então pediram a Deus o perdão, e Ele os perdoou.
2. O LEGADO DE EVA
A imagem de Eva na Bíblia, como uma mulher sedutora, teve um impacto
extremamente negativo para as mulheres através da tradição
judaico-cristã. Acreditava-se que todas as mulheres haviam herdado
de sua mãe, a bíblica Eva, tanto a sua culpa como a sua astúcia.
Conseqüentemente, as mulheres não eram dignas de confiança, eram
moralmente inferiores e más. Menstruação, gravidez e parto eram
considerados punições justas para uma culpa eterna do amaldiçoado
sexo feminino.
A fim de examinarmos como foi negativo o impacto da Eva bíblica
sobre sua descendência feminina, temos que olhar para os escritos de
alguns do mais importantes judeus e cristãos de todos os tempos.
Comecemos pelo Velho Testamento, e olhemos para alguns excertos da
chamada Literatura da Sabedoria, onde encontramos: "Eu acho a mulher
um pouco pior do que a morte, porque ela é uma armadilha, cujo
coração é um alçapão e cujas mãos são cadeias. O homem que agrada a
Deus foge dela, mas ao pecador ela o aprisionará ... enquanto eu
estava procurando, e não estava encontrando, achei um homem correto
entre mil, mas não encontrei uma só mulher correta entre todas elas"
(Eclesiastes 7:26-28).
Em outra parte da literatura hebraica, que é encontrada na bíblia
católica, nós lemos: "Nenhuma maldade está mais próxima do que a
maldade de uma mulher" ... "O pecado começa com a mulher e, graças a
ela, todos nós devemos morrer". (Eclesiastes 25:19,24).
Os rabinos judeus listaram nove maldições infligidas às mulheres,
como resultado da Queda:
"Para a mulher Ele deu nove maldições e a morte: o peso do sangue da
menstruação e o sangue da virgindade; o peso da gravidez; o peso do
parto; o peso de educar crianças; sua cabeça é coberta como no luto;
ela fura a orelha como uma escrava permanente, ou escrava que serve
ao seu senhor; ela não deve ser tomada por testemunha; e depois de
tudo -- a morte". (2)
Nos dias atuais, judeus ortodoxos, em suas preces matinais diárias,
recitam "Abençoado seja Deus, Rei do universo que não nos fez
mulher". As mulheres, por outro lado, agradecem a Deus cada manhã
por "me fazer de acordo com Tua vontade". (3) Outra oração
encontrada em muitos livros de preces judeus: "Louvado seja Deus que
não me criou gentio. Louvado seja Deus que não me criou mulher.
Louvado seja Deus que não me criou ignorante". (4)
A Eva bíblica desempenhou um papel mais importante no Cristianismo
do que no Judaísmo. Seu pecado foi a base de toda a fé cristã,
porque a concepção cristã da razão da missão de Jesus Cristo na
terra provém da desobediência de Eva. Ela pecou e, então, seduziu
Adão para segui-la em seu propósito. Consequentemente, Deus expulsou
a ambos do céu para a terra, que foi amaldiçoada por causa deles.
Eles herdaram seus pecados, os quais não foram perdoados por Deus e,
por isso, todos os humanos nascem em pecado. A fim de purificar os
seres humanos do "pecado original", Deus teve que sacrificar, na
cruz, Jesus, que é considerado o filho de Deus. Em razão disso, Eva
é culpada de seu próprio pecado, do pecado de seu marido, do pecado
original de toda a humanidade e da morte do Filho de Deus. Em outras
palavras, uma só mulher, agindo por conta própria, causou toda a
queda da humanidade (5). O que dizer sobre suas filhas? Elas são
pecadoras como Eva e devem ser tratadas como tal. Ouçam o tom severo
de São Paulo no Novo Testamento: Uma mulher deve aprender em calma e
total submissão. Eu não permito a uma mulher ensinar ou ter
autoridade sobre um homem; ela deve ser calada. Porque Adão foi
feito primeiro, e depois Eva. E Adão não foi o que perdeu, foi a
mulher que perdeu e se tornou pecadora (I Timóteo 2:11-14).
São Tertuliano foi mais brando que São Paulo, quando falava "às
queridas irmãs" na fé. Ele dizia (6): "Vocês sabem que cada uma de
vocês é uma Eva? A sentença de Deus sobre o sexo de vocês subsiste
até agora: a culpa necessariamente subsiste também. Vocês são a
porta de entrada para o Diabo: Vocês são a marca da árvore proibida:
Vocês são as primeiras desertoras da divina lei: Vocês são aquelas
que persuadiram o homem de que o diabo não precisava ser atacado.
Vocês destruíram tão facilmente a imagem de Deus, o homem. Por causa
de sua deserção, o Filho de Deus teve que morrer".
Santo Agostinho foi fiel ao legado de seus antecessores. Ele
escreveu a um amigo: "Qual é a diferença, seja uma esposa ou uma
mãe, ainda assim é da Eva tentadora que devemos nos precaver em
qualquer mulher. Eu não consigo ver qual o uso que uma mulher pode
ter para um homem, exceto a função de dar à luz crianças".
Séculos mais tarde, São Tomás de Aquino ainda considerava a mulher
como um defeito: "Com relação à natureza individual, a mulher é
defeituosa e mal feita, porque a força ativa na semente masculina
tende para a produção de uma perfeita semelhança no sexo masculino;
enquanto que a produção da mulher provém de um defeito na força
ativa ou de alguma indisposição material, ou mesmo de algumas
influências externas".
Finalmente, o famoso reformador Martinho Lutero não conseguia ver
qualquer benefício em uma mulher, a não ser trazer ao mundo tantas
crianças quanto possível, apesar das conseqüências: "Se elas se
cansarem ou mesmo morrerem, isto não é problema. Deixe-as morrer no
parto, é para isso que estão aqui".
Muitas vezes as mulheres foram denegridas por causa da imagem de Eva
como a tentadora, graças ao relato em Gênesis. Para resumir, a
concepção judaico-cristã sobre as mulheres foi envenenada pela
crença na natureza pecaminosa de Eva e de sua descendência feminina.
Se agora voltarmos nossa atenção para o que o Alcorão diz sobre as
mulheres, logo perceberemos que a concepção islâmica sobre elas é
radicalmente diferente daquela encontrada no conceito
judaico-cristão. Deixemos que o Alcorão fale por si mesmo:
"Quanto aos muçulmanos e muçulmanas, aos fiéis e às fiéis, aos
devotados e às devotadas, aos verdadeiros e às verdadeiras, aos
homens e mulheres que são perseverantes, aos homens e mulheres que
são humildes, para os homens e mulheres que fazem a caridade, para
os homens e mulheres que jejuam, aos homens e mulheres que guardam a
castidade, e aos homens e mulheres que se comprometem em louvar Alá,
para todos eles Alá preparou o perdão e uma grande recompensa"
(33:35).
"Os crentes, homens e mulheres, são protetores uns dos outros:
usufruem do que é justo e proíbem o mal, observam as preces
regulares, praticam a caridade regularmente e obedecem a Alá e Seu
Mensageiro. Sobre eles Alá despejará Sua Misericórdia: porque Alá é
Exaltado em poder e sabedoria" (9:71)
"E seu Senhor respondeu a eles: Verdadeiramente, jamais perderei a
obra de qualquer um de vós, seja homem ou mulher, porque procedeis
uns do outros" (3:195)
"Quem cometer uma iniqüidade será pago na mesma moeda e aquele que
praticar o bem, seja homem ou mulher, e é um crente, entrará no
Jardim de felicidade" (40:40).
"Quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e for fiel, concederemos
uma vida agradável e premiaremos com uma recompensa, de acordo com o
melhor de suas ações" (16:97).
Está claro que a visão do Alcorão a respeito da mulher não difere da
do homem. Ambos são criaturas de Deus e têm como sublime meta adorar
seu Senhor, fazer boas ações e evitar o mal e por isso serão
avaliados harmoniosamente. O Alcorão jamais menciona que a mulher é
a porta de entrada para o mal ou que ela é uma enganadora por
excelência. O Alcorão também jamais menciona que o homem é a imagem
de Deus. Homens e mulheres são suas criaturas e só.
De acordo com o Alcorão, o papel da mulher na terra não está
limitado somente ao parto. Dela se exige fazer boas ações, tanto
quanto é exigido dos homens. O Alcorão nunca diz que jamais existiu
uma mulher correta. Pelo contrário, o Alcorão instruiu a todos os
crentes, homens e mulheres, a seguir o exemplo daquelas mulheres ,
tais como a Virgem Maria e a esposa do Faraó:
"E Deus dá, como exemplo aos fiéis, o da esposa do Faraó, que disse:
Ó Senhor meu, construí, junto a ti, uma morada no Paraíso e livra-me
do Faraó e de suas ações, e salva-me dos iníquos! E com Maria, filha
de Imram, que conservou seu pudor e a qual alentamos com o Nosso
Espírito; e ela testemunhou a verdade das palavras de seu Senhor e
de Suas revelações e era uma das devotas" (66:11/13).
3. FILHAS VERGONHOSAS?
Realmente, a diferença entre a atitude bíblica e a alcorâmica, em
relação ao sexo feminino, começa logo que a mulher nasce. Por
exemplo, a Bíblia estabelece que o período do ritual materno da
impureza é duas vezes mais longo no caso do nascimento de uma menina
do que no de um menino (Levítico 12:2-5) . A Bíblia Católica
estabelece explicitamente que: "O nascimento de uma filha é uma
prejuízo" (Eclesiastes 22:3). Em contraste com essa absurda
declaração, os meninos recebem especial louvor: "Um homem que educa
seu filho será invejado por seu inimigo" (Eclesiastes 30:3).
Os rabinos judeus tornaram uma obrigação para os homens produzirem
uma descendência, a fim de propagar a raça. Ao mesmo tempo, eles não
escondiam sua preferência por meninos: "É bom para aqueles cujas
crianças são meninos, mas é mau para aqueles cujas crianças são
meninas", " no nascimento de um menino tudo é alegria ... no
nascimento de uma menina tudo é tristeza", e "Quando um menino chega
ao mundo, a paz chega ao mundo ... Quando uma menina chega ao mundo,
nada chega". (7)
Uma filha é considerada um peso doloroso, uma fonte potencial de
vergonha para seu pai: "Sua filha é teimosa? Mantenha um olhar firme
para que ela não faça de você um motivo de gargalhada para seus
inimigos, de falatório na cidade, objeto de fofocas e coloque você
em situação de vergonha pública" (Eclesiastes 42:11). Mantenha uma
filha teimosa sob firme controle ou ela abusará de qualquer
indulgência que receba. Mantenha vigilância sobre seu olho
sem-vergonha, não se surpreenda se ela o desgraçar" (Eclesiastes
26:10-11). Foi esta mesma idéia de tratar as filhas como fonte de
vergonha, que levou os árabes pagãos , antes do advento do Islam, a
praticar o infanticídio feminino. O Alcorão condena vigorosamente
esta prática hedionda:
"Quando a algum deles é anunciado o nascimento de uma filha o seu
semblante se entristece e fica angustiado. Oculta-se do seu povo,
pela má notícia que lhe foi anunciada: deixá-la-á viver,
envergonhado, ou a enterrará viva? Que péssimo é o que julgam."
(16:58/59).
Deve ser dito que, este crime sinistro, jamais teria parado na
Arábia, não fora a força dos termos que o Alcorão usou para condenar
tal prática (l6:59, 43:17, 8l:8/9).
Além disso, o Alcorão não faz distinção entre meninos e meninas. Em
contraste com a Bíblia, o Alcorão considera o nascimento de uma
mulher como um presente e uma bênção de Deus, da mesma forma que o
nascimento de um menino.O Alcorão sempre menciona o presente do
nascimento feminino primeiro:
"A Alá pertence o domínio dos céus e da terra. Ele cria o que lhe
apraz. Concede filhas a quem quer e filhos a quem lhe apraz"
(42:49).
A fim de apagar qualquer traço do infanticídio feminino na nascente
sociedade muçulmana, o Profeta Mohammad prometeu àqueles que fossem
abençoados com filhas uma grande recompensa, se eles as tratassem
gentilmente: "Aquele que se ocupa da educação das filhas e as trata
benevolentemente, estará protegido contra o Inferno" (Bukhari e
Muslim). "Aquele que mantém duas meninas, até que elas atinjam a
maturidade, ele e eu chegaremos no dia da ressurreição desse modo: e
ele juntou seus dedos" (Muslim).
4. A EDUCAÇÃO FEMININA?
A diferença entre os conceitos bíblicos e os alcorânicos sobre a
mulher não está limitada apenas ao seu nascimento, ela vai muito
mais longe. Comparemos suas atitudes em relação à mulher, tentando
aprender sua religião. O coração do judaísmo é a Tora, a lei.
Contudo, de acordo com o Talmud, "as mulheres estão isentas de
estudarem a Tora". Alguns rabinos declaram firmemente "é preferível
que as palavras da Tora sejam destruídas pelo fogo a serem
partilhadas com uma mulher", e "aquele que ensina a sua filha a Tora
é como se ele lhe ensinasse obscenidade" (8).
A atitude de São Paulo no Novo Testamento não é mais inteligente:
"Como em todas as congregações de santos, as mulheres devem
permanecer caladas nas igrejas. Não é permitido a elas falar, e
devem ser submissas, como a lei diz. Se elas quiserem perguntar
sobre alguma coisa, devem perguntar aos seus maridos em casa; porque
é vergonhoso para uma mulher falar nas igrejas". (I Coríntios
14:34/35)
Como pode a mulher se instruir se não lhe é permito falar? Como pode
uma mulher crescer intelectualmente se ela é obrigada a um estado de
completa submissão? Como pode ela delinear seus horizontes, se sua
única fonte de informação é seu marido em casa?
Agora, para ser gentil, devemos perguntar: A posição alcorânica é
diferente? Uma pequena estória narrada no Alcorão resume sua posição
concisamente. Khawlah era uma muçulmana, cujo marido Aws declarou,
em um momento de raiva: "Para mim você é como as costas de minha
mãe". Isto era tomado como uma declaração de divórcio pelos árabes
pagãos e liberava o marido de qualquer responsabilidade conjugal,
mas não deixava a esposa livre para deixar a casa do marido ou para
se casar de novo. Tendo ouvido estas palavras de seu marido, Khawlah
estava numa triste situação. Ela foi direto ao Profeta do Islam para
apelar para o seu caso. O Profeta era de opinião que ela deveria ser
paciente, desde que parecesse que não havia outro caminho. Khawlah
continuou questionando o Profeta, na esperança de salvar o seu
casamento. Rapidamente, o Alcorão interveio e o apelo de Khawlah foi
aceito. O veredicto divino aboliu este costume iníquo. Um capítulo
inteiro (Capítulo 58) do Alcorão, intitulado A Discussão, ou "A
mulher que questionou", foi nomeado após este incidente:
"Alá ouviu e aceitou a declaração da mulher que apela a você (o
Profeta) acerca de seu marido e leva sua queixa à Alá e Alá ouve os
argumentos entre vocês, porque Alá ouve e vê todas as coisas ..."
(58:1)
A mulher na concepção alcorânica, tem o direito de argumentar, mesmo
com o Profeta do Islam. Ninguém tem o direito de instruí-la a ficar
calada. Ela não é obrigada a considerar seu marido como a única
referência em matéria de lei e religião.
5. A MULHER SUJA E IMPURA
As leis e regulamentos judaicos, referentes à mulher menstruada, são
extremamente restritivos. O Velho Testamento considera qualquer
mulher menstruada impura e suja. Além disso, sua impureza "infecta"
outras pessoas também. Qualquer um ou qualquer coisa tocada por ela
torna-se sujo por um dia: "Quando uma mulher tem seu fluxo regular
de sangue, a impureza de seu período mensal durará por sete dias e
qualquer um que a toque estará sujo até a noite. Qualquer lugar onde
ela se deite, durante o seu período, ficará sujo e qualquer lugar
onde ela se sente ficará sujo. Qualquer um que toque sua cama
precisa lavar suas roupas e banhar-se com água e ele ficará sujo até
a noite. Qualquer um que toque qualquer lugar onde ela se senta deve
lavar suas roupas e banhar-se com água e ele estará sujo até a
noite. Se for a cama ou qualquer coisa que ela estava sentada, que
alguém tocou, ele ficará sujo até a noite" (Levítico 15:19/23).
Devido à sua natureza "contaminadora", uma mulher menstruada era
"banida" algumas vezes, a fim de evitar qualquer possibilidade de
contato com ela. Ela era mandada para um lugar especial, chamado "a
casa das impuras", por todo o período de sua impureza (9). O Talmud
considera a mulher menstruada como "fatal", mesmo que não haja
qualquer contato físico: "Nossos rabinos ensinaram: ... se uma
mulher menstruada passar entre 2 (homens), se ela estiver no início
de suas regras, ela matará um deles e se estiver no final de suas
regras ela causará briga entre eles" (Pes. 111a.)
Além disso, o marido de uma mulher menstruada era proibido de entrar
na sinagoga, se ela o tivesse feito ficar impuro, mesmo que pela
poeira de seus pés. Um pastor, cuja esposa, filha ou mãe estivessem
menstruadas, não podia recitar as bênçãos na sinagoga (10) . Não
espanta que muitas mulheres judias se refiram à menstruação como "a
maldição".
O Islam não considera a mulher menstruada como possuída por qualquer
espécie de "sujeira contagiosa". Ela não é nem "intocável" nem
"amaldiçoada". Ela pratica sua vida normal, apenas com algumas
restrições. Um casal não pode ter relações sexuais durante o período
menstrual. Qualquer outro contato físico entre eles é permitido. Uma
mulher menstruada está isenta de alguns rituais, tais como as preces
diárias e o jejum durante o seu período.
6. DAR O TESTEMUNHO
Outra questão, na qual o Alcorão e a Bíblia discordam, é a que se
refere ao testemunho da mulher. Na verdade, o Alcorão instruiu os
crentes a fazerem transações financeiras com o testemunho de 2
homens ou 1 homem e 2 mulheres (2:282). Contudo, é também verdade
que o Alcorão, em outras situações, aceita o testemunho da mulher
tão igual quanto ao do homem. Realmente, o testemunho da mulher pode
mesmo invalidar o do homem. Se um homem acusa sua esposa de falta de
castidade, exige-se dele um juramento solene pelo Alcorão, por 5
vezes, como evidência da culpa de sua esposa. Se a esposa nega e
jura igualmente 5 vezes, ela não é considerada culpada e em qualquer
dos casos o casamento é dissolvido (24:6/11).
Por outro lado, as primeiras sociedades judaicas (12) não permitiam
o testemunho feminino . Os rabinos contavam entre as 9 maldições
infligidas às mulheres por causa da queda, a de não ser capaz de
prestar testemunho (ver a seção "Legado de Eva"). Hoje, em Israel,
as mulheres não podem apresentar provas em cortes rabínicas (13). Os
rabinos justificam o fato de as mulheres não poderem prestar
testemunho, citando o Gênesis 18:9/16, onde está estabelecido que
Sara, esposa de Abraão, havia mentido. Por causa desse incidente, os
rabinos desqualificaram o testemunho feminino. Deve-se notar que
esta estória narrada em Gênesis 18:9/16 foi mencionada mais de uma
vez no Alcorão, sem qualquer sugestão de que Sara houvesse mentido
(11:69/74, 5l:24/30). No ocidente cristão, as leis civis e
eclesiásticas proibiam as mulheres de dar testemunho até o final do
século passado (14).
Se um homem acusa sua mulher de infidelidade, seu testemunho,
segundo a Bíblia, não será considerado de maneira nenhuma. A esposa
acusada tinha que ser submetida a um julgamento penoso. Neste
julgamento, a esposa enfrentava um ritual complexo e humilhante, no
qual se supunha provar sua culpa ou inocência (Números 5:11/31). Se
ela fosse culpada ela seria sentenciada à morte. Se ela fosse
inocente, seu marido seria inocentado de qualquer injustiça. Além
disso, se um homem toma uma mulher como esposa e, então, ele a acusa
de não ser virgem, o testemunho dela não será levado em conta. Seus
pais tinham que trazer provas de sua virgindade ante os mais velhos
da cidade. Se os pais não pudessem provar a inocência de sua filha,
ela seria apedrejada até a morte na soleira da casa de seus pais. Se
os pais não fossem capazes de provar sua inocência, o marido seria
obrigado a pagar uma multa e não poderia se divorciar da esposa
enquanto ele vivesse: "Se um homem toma uma esposa e, após deitar
com ela, se desagrada dela e a difama chamando-a por nomes feios,
dizendo, "Eu me casei com esta mulher, mas quando eu me aproximei
dela eu não encontrei provas de sua virgindade", então os pais da
moça deverão trazer para os mais velhos da cidade a prova de que ela
era virgem. O pai da moça dirá aos mais velhos, "Eu dei minha filha
em casamento a este homem, mas ele se antipatizou com ela. Agora,
ele está difamando-a e diz "eu não encontrei a sua filha virgem".
Mas, aqui está a prova da virgindade da minha filha". Então, seus
pais exibirão a roupa perante os anciãos da cidade e eles punirão o
homem. Eles o multarão em 100 moedas de prata e as darão ao pai da
moça, porque esse homem deu um nome mau para uma virgem israelita.
Ela continuará a ser sua esposa e ele não poderá se divorciar dela
enquanto viver. Se, contudo, a acusação for verdadeira e nenhuma
prova da virgindade da moça puder ser encontrada, ela será trazida à
porta da casa de seu pai e lá, os homens da cidade a apedrejarão até
a morte. Ela fez uma coisa vergonhosa para Israel, sendo promíscua
enquanto estava na casa de seu pai. O mal deve ser expurgado de
entre vocês." (Deuteronômio 22:13/21)
7. O ADULTÉRIO
O adultério e a fornicação são considerados pecados em todas as
religiões. A Bíblia decreta a sentença de morte para ambos os
adúlteros (Levítico 20:10). O Islam, igualmente, pune tanto o
adúltero como a adúltera (24:2). Contudo, a definição alcorânica é
muito diferente da definição bíblica. O adultério, de acordo com o
Alcorão, é o envolvimento de um homem casado ou uma mulher casada em
um caso extraconjugal. A Bíblia somente considera adultério o caso
extraconjugal de uma mulher casada. (Levítico 20:10, Deuteronômio
22:22. Provérbios 6:20/7:27).
"Se um homem é encontrado dormindo com a esposa de outro homem,
ambos devem morrer. Deve-se expurgar o mal de Israel" (Deuteronômio
22:22).
"Se um homem comete adultério com a esposa de outro homem, ambos,
adúltero e adúltera devem ser colocados para morrer" (Levítico
20:10).
De acordo com a definição bíblica, se um homem casado dorme com uma
mulher solteira, isto não é considerado crime de forma nenhuma.
O homem casado, que tem relações extraconjugais com mulheres
solteiras, não é um adúltero e as mulheres solteiras envolvidas com
ele não são consideradas adúlteras. O crime de adultério é cometido
somente quando um homem, seja casado ou solteiro, dorme com uma
mulher casada. Neste caso, o homem é considerado adúltero, mesmo que
ele não seja casado, e a mulher é considerada adúltera. Em resumo, o
adultério é qualquer ato sexual ilícito envolvendo mulher casada. O
caso extraconjugal de um homem casado não é, de per si, um crime na
Bíblia. Por que este padrão moral duplo? De acordo com a
Enciclopédia Judia, a esposa era considerada como posse de seu
marido e o adultério constituía a violação do exclusivo direito do
marido sobre ela; a esposa, como posse do marido, não tinha direito
sobre ele (15). Quer dizer, se um homem tinha uma relação sexual com
uma mulher casada, ele estaria violando a propriedade de outro homem
e, assim, deveria ser punido.
Nos dias atuais em Israel, se um homem casado se entrega a um caso
extraconjugal com um mulher solteira, seus filhos com esta mulher
são considerados legítimos. Mas, se uma mulher casada tem um caso
com outro homem, seja casado ou solteiro, seus filhos com este homem
são considerados ilegítimos e bastardos e são proibidos de casar com
qualquer outro judeu, exceto com os convertidos e com outros
bastardos. Este impedimento cessa após a 10a. geração, quando se
presume que a mancha do adultério enfraqueceu-se (16).
O Alcorão, por outro lado, nunca considera uma mulher como posse de
qualquer homem. O Alcorão eloqüentemente descreve a relação entre os
esposos dizendo:
"E entre os Seus sinais está que Ele criou para vós companheiros de
entre vós mesmos, os quais vós podeis habitar em tranqüilidade com
eles e Ele colocou amor e misericórdia em vossos corações:
verdadeiramente, nisto há sinais para aqueles que refletem" (30:21).
Este é o conceito alcorânico de casamento: amor, misericórdia e
tranqüilidade, não posse e padrões duplos.
8. JURAMENTOS
De acordo com a Bíblia, um homem deve cumprir quaisquer juramentos
que ele faça a Deus. Ele não pode quebrar a sua palavra. Por outro
lado, o juramento de uma mulher não cria necessariamente uma
obrigação para ela. Deve ser aprovado pelo seu pai, se ela está
morando em sua casa, ou por seu marido, se ela for casada. Se um
pai/marido não endossa os juramentos de sua filha/esposa, todas as
garantias feitas por ela tornam-se nulas e inócuas: "Mas, se seu pai
a proíbe quando ele a ouve fazer o juramento, nenhum de seus
juramentos ou garantias pelas quais ela se obrigava, permanecerão
... Seu marido pode confirmar ou anular qualquer juramento que ela
faça ou qualquer garantia prometida para negar-lhe" (Números
30:2/15).
Por que a palavra de uma mulher não a sujeita de per si? A resposta
é simples: porque ela é propriedade de seu pai, antes do casamento,
ou de seu marido após o casamento. O controle paterno sobre sua
filha era absoluto até o ponto em que, se ele o desejasse, poderia
vendê-la! Está indicado nos escritos dos rabinos que: "O homem pode
vender sua filha, mas a mulher não pode vender sua filha; o homem
pode contratar casamento para a sua filha, mas a mulher não pode
fazê-lo para sua filha". (17). A literatura rabínica também indica
que o casamento representa a transferência de controle do pai para o
marido: "o noivado, fazendo da mulher a posse sacrossanta - a
propriedade inviolável -- do marido ..."; Obviamente, se a mulher é
considerada propriedade de alguém, ela não pode dar qualquer
garantia que seu dono não aprove.
É de interesse notar que esta instrução bíblica, relativa aos
juramentos das mulheres, teve repercussões negativas sobre as
mulheres judias e cristãs até o início deste século. Uma mulher
casada, no mundo ocidental, não tinha status legal. Nenhum ato seu
tinha qualquer valor legal. Seu marido podia repudiar qualquer
contrato, comércio ou negócio feito por ela. As mulheres no ocidente
(as maiores herdeiras do legado judaico-cristão) eram tidas como
incapazes de cumprir contratos porque elas eram praticamente a posse
de alguém. As mulheres ocidentais sofreram por quase 2 mil anos por
causa da postura bíblica em relação à posição da mulher, vis-a-vis
seus pais e maridos (18).
No Islam, o juramento de cada muçulmano, homem ou mulher, o/a
sujeita. Ninguém tem o poder de repudiar as garantias de quem quer
que seja. Falhar na manutenção de um juramento solene, feito por um
homem ou uma mulher, tem que ser expiado conforme indicado no
Alcorão: "Ele (Deus) vos chamará pelos vossos juramentos
deliberados: como expiação, alimentai dez pessoas indigentes, da
maneira como alimentais vossa família,. ou vesti-os, ou libertai um
escravo. Se isso estiver além de vossas posses, jejuai por 3 dias.
Esta é a expiação para os vossos perjúrios. Mantenham, pois, vossos
juramentos" (5:89).
Os companheiros do Profeta Muhammad ,
homens e mulheres, costumavam apresentar seus juramentos de
submissão a ele pessoalmente. As mulheres, tanto quanto os
homens,vinham livremente até ele e prestavam seus juramentos: "Ó
Profeta, quando as mulheres crentes vierem a ti para fazer um acordo
contigo de que elas não atribuirão parceiros a Deus, nem roubarão,
ou fornicarão, ou matarão seus próprios filhos, não matarão ninguém,
nem desobedecerão a ti em qualquer assunto, então tome este
compromisso com elas e peça a Deus o perdão para os pecados delas.
Na verdade, Deus é Perdoador e o mais Misericordioso (60:12).
Um homem não pode fazer um juramento por conta de sua filha ou
esposa. Nem pode um homem repudiar o juramento feito por quaisquer
de suas parentes femininas.
9. PROPRIEDADE DA ESPOSA?
As três religiões dividem uma fé inabalável na importância do
casamento e da vida familiar. Elas também concordam na liderança do
marido sobre a família. No entanto, diferenças gritantes existem
entre as três religiões, com relação aos limites dessa liderança. A
tradição judaico-cristã, diferente do Islam, virtualmente estende a
liderança do marido até o direito de posse de sua esposa.
A tradição judaica, com referência ao papel do marido em relação a
sua esposa, origina-se do conceito de que ele a possui como sua
escrava (19). Este conceito foi a razão que norteou o padrão duplo
nas leis do adultério e na capacidade de o marido anular os
juramentos de sua esposa. Este conceito foi também o responsável
para se negar à esposa qualquer controle sobre sua propriedade ou
ganhos. Assim que a mulher judia se casava, ela perdia completamente
qualquer controle sobre sua propriedade e ganhos para o seu marido.
Os rabinos judeus afirmavam que o direito do marido sobre a
propriedade de sua esposa era um corolário de sua posse sobre ela:
"Desde que alguém entre na posse da mulher não deveria entrar na
posse de sua propriedade também?" , e "Desde que ele tenha adquirido
a mulher, não deve ele adquirir sua propriedade também?" (20).
Assim, o casamento determinava que a mulher mais rica ficasse
praticamente sem um tostão. O Talmud descreve a situação financeira
da esposa como se segue:
"Como pode uma mulher ter alguma coisa; o que quer que seja dela,
pertence ao seu marido? O que é dele é dele e o que é dela é também
dele ... Seus ganhos, e o que ela possa encontrar nas ruas, também
são dele. Os artigos domésticos, mesmo as migalhas de pão sobre a
mesa, são dele. Ter um convidado em sua casa e alimentá-lo é roubar
de seu marido ..." (San. 71a, Git. 62a.).
A questão é que a propriedade da mulher judia significava atrair
pretendentes. A família judia fixava para sua filha uma quota
representativa do estado de seu pai, a ser usada como dote em caso
de casamento. Era este dote que tornava as filhas judias um peso
inoportuno para seus pais. O pai tinha que educar sua filha por anos
e então prepará-la para o casamento, providenciando um grande dote.
Assim, a moça na família judia era uma obrigação e não um direito
(21). Esta responsabilidade explica por que o nascimento de uma
filha não era celebrado com alegria nas antigas sociedades judias
(ver a seção "Filhas Vergonhosas?". O dote era o presente de
casamento apresentado ao noivo sob os termos de contrato. O marido
agia como o proprietário do dote mas não podia vendê-lo. A noiva
perdia qualquer controle sobre o dote no momento do casamento. Além
disso, esperava-se dela trabalhar após o casamento e todos os seus
ganhos tinham que ir par seu marido, como paga por sua manutenção, a
qual era obrigação dele. Ela poderia ter de volta sua propriedade
somente em duas situações: divórcio ou a morte do marido. Se ela
morresse primeiro, ele herdaria sua propriedade. No caso da morte do
marido, a esposa poderia retomar sua propriedade de antes do
casamento, mas não se habilitava a herdar qualquer cota de
propriedade do marido falecido. Deve-se acrescentar que o noivo
também tinha que apresentar seu presente de casamento à noiva,
contudo, de novo, ele era praticamente o proprietário deste presente
enquanto eles permanecessem casados. (22).
O cristianismo, até recentemente, seguiu a mesma tradição judaica.
No império cristão romano (após Constantino), tanto as autoridades
civis como as religiosas, exigiam um acordo sobre a propriedade,
como condição para o reconhecimento do casamento. As famílias
ofereciam às suas filhas aumento dos dotes e, como resultado, os
homens tendiam a se casar mais cedo, enquanto que as famílias
retardavam o casamento delas até o máximo. (23). Pela lei canônica,
uma esposa se habilitava à restituição de seu dote se o casamento
fosse anulado, a menos que ela fosse culpada de adultério. Neste
caso, ela perdia seu direito ao dote, o qual permanecia nas mãos do
marido (24). Pelas leis canônica e civil, uma mulher casada, na
Europa cristã e na América, até o final do séc. XIX e início do séc.
XX, perdia os direitos a sua propriedade. Os direitos da mulher
inglesa, por exemplo, foram compilados e publicados em l632. Estes
"direitos" incluíam: "Aquilo que o marido possui é seu. Aquilo que a
esposa tem é do marido" (25)
A esposa não somente perdia sua propriedade após o casamento, como
perdia sua personalidade também. Nenhum ato jurídico dela tinha
valor legal. Seu marido podia repudiar qualquer compra ou presente
feito por ela como sendo nulo de qualquer valor legal. A pessoa com
quem ela tivesse contratado era tomado como um criminoso por ter
participado de uma fraude. Além disso, ela não podia processar,
sequer seu marido, nem ser processada (26). Uma mulher casada era
praticamente tratada como uma criança aos olhos da lei. A esposa
simplesmente pertencia a seu marido e, por isso, ela perdia sua
propriedade, sua personalidade jurídica e seu nome de família (27)
Divórcio no Islam
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