Abdullah b. Umm Maktum

“Benvindo seja aquele em cujo favor o meu Senhor me repreendeu.”
Dito pelo abençoado Profeta a Ibn Umm Maktum.

Quem foi aquela pessoa em cujo favor o abençoado Profeta (S) foi repreendido pelo Próprio Allah? Em seu favor, o Anjo Gabriel desceu, pela ordem de Allah, do mais elevado Céu, trazendo consigo uma revelação para o abençoado Profeta (S), revelação essa contendo uma severa repreensão. Tal pessoa foi Abdullah b. Ummu Maktum, o muazin do abençoado Profeta (S).

Abdullah b. Umm Maktum era mequéns, da tribo Coraixita, e um parente do abençoado Profeta (S), pois era primo em primeiro grau da Mãe dos Crentes, Cadija bint Khuwailid (que Allah esteja aprazido com ela). O nome do pai dele era Cais b. Zaid, e o nome da mãe era Atika bint Abdullah, mas foi-lhe dado o matronímico de Umm Maktum (mãe do que está na escuridão) quando deu à luz seu filho Abdullah, que era cego de nascença.

Ibn Umm Maktum (literalmente: filho da mãe do cego) testemunhou o despertar do Islam em Makka, e Allah inclinou o seu coração para a fé; assim, ele foi um dos primeiros a se declarar muçulmano. Compartilhou com os muçulmanos as atribulações destes, em Makka, e suportou com firmeza todos os sacrifícios pelos quais tinham que passar.

O fato de que era cego não fazia diferença alguma para os pagãos do Coraix, que o perseguiam com o mesmo espírito venenoso com que tratavam todos aqueles que aceitavam o Islam. A despeito disso, sua fé na e dedicação quanto à sua religião iam aumentando. Tornava-se cada vez mais profundamente apegado à religião de Allah e ao Seu Livro, sendo que o conhecimento do Islam tornou-se a sua meta, na vida.

Sua devoção ao abençoado Profeta (S), e seu entusiasmo por aprender o Alcorão, chegavam a tal ponto, que nunca deixava escapar uma chance de pedir ao Profeta (S) que o ensinasse. Ocasionalmente, ele não apenas tomava parte do tempo do abençoado Profeta (S), mas de outros também.

Naquele estágio da sua missão, o abençoado Profeta (S) precisava de tempo para escrever aos chefes do Coraix; estava ansioso por convencê-los a aceitarem o Islam. Num dia, ele se encontrou com Utba b. Rabi’a, com o irmão deste, Chaiba b. Rabi’a, com Amr b. Hicham (Abu Jahl), com Umaiya b. Khalaf, e com Al Walid b. Mughira. Ele começou a debater com eles, aliciando-os para a discussão, para que pudessem aprender coisas sobre o Islam. Esperava obter deles uma resposta positiva, ou pelo menos que parassem de causar danos aos Crentes.

Enquanto ele estava envolvido naquela discussão, o Abdullah b. Umm Maktum foi ter com ele, desejando que ele recitasse um versículo do Alcorão.

“Ó Mensageiro de Allah, ensina-me o que Allah te ensinou”, ele implorou.

O nobre Profeta (S) se afastou dele, tendo o rosto a expressar descontentamento, e voltou para o grupo de pessoas com as quais tinha estado conversando. Ele esperava conseguir a aliança deles para o Islam, coisa que iria reforçar a comunidade muçulmana, e dar-lhe prestígio aos olhos dos inimigos.

Ele terminou sua discussão, e apenas tinha tomado o caminho de casa, quando Allah fez com que se anuviasse a sua visão, e ele sentiu uma pontada na cabeça. Então Allah revelou-lhe Suas Palavras:

“Ele franziu o semblante e se afastou,

Porque o cego com ele foi ter;

Como podes saber? talvez tivesse vindo purificar-se.

Ou prestar atenção, e beneficiar-se com a lembrança.

Quanto àqueles que se têm na conta de auto-suficientes,

Tu és todo atenção,

Sendo que não é tua culpa se não se purificam.

Porém, quanto àquele que vem ter contigo em sinceridade,

Com o coração cheio de temor a Allah,

Eis que não lhe dás atenção.

Ora, esta é uma mensagem-lembrete,

E aquele que desejar, lembrar-se-á dela.

Está nas Escrituras, guardada com honra,

Guardada em alta estima, e purificada,

Nas mãos dos mensageiros,

Que são nobres e de condutas retas.”

Esses são dezesseis versículos do Sagrado Alcorão, trazidos pelo Anjo Gabriel e ensinados ao abençoado Profeta (S). São dezesseis versículos, todos relacionados com o Ibn Umm Maktum, os quais têm sido recitados por incontáveis muçulmanos, desde aquele dia, até aos nossos tempos. Eles continuarão a ser recitados até ao final dos tempos, quando Allah irá herdar a terra, com tudo que nela está.

Do dia daquela revelação em diante, o abençoado Profeta passou a honrar o Ibn Umm Maktum, a dar-lhe o melhor assento, se o fosse visitar, e a atender-lhe as necessidades. Isso não é causa para espanto, pois o Próprio Allah havia repreendido o abençoado Profeta (S) pelo seu tratamento dispensado ao Ibn Umm Maktum.

Quando a perseguição que os Coraixitas estavam infligindo aos muçulmanos atingiu o seu auge, o abençoado Profeta (S) anunciou que Allah lhes havia ordenado empreenderem a hégira. Ibn Umm Maktum foi a primeira pessoa a ajudar a comunidade a dar aquele passo, pois foi para Yasrib juntamente com Mussaab b. Umayr, outro companheiro do abençoado Profeta S(). Quando chegaram à cidade, andaram por todo lado, recitando o Alcorão e orientando as pessoas acerca do Islam. Foram eles que conseguiram os primeiros convertidos do local, que eventualmente convidaram o Profeta (S) e os Crentes a empreenderem a hégira para a cidade deles, que conhecemos como Madina.

Quando o abençoado Profeta (S) se estabeleceu em Madina, escolheu o Abdullah b. Umm Maktum e o Bilal b. Rabah para fazerem o chamamento à orações. Eles conclamavam a todos para a profissão de fé, cinco vezes ao dia, chamando os fiéis à oração, para as boas ações, e os encorajavam a procurar o sucesso por meio da adoração.

Revezavam-se, recitando, um, o azan (chamamento para a oração), e o outro, o iqáma. (o erguer-se para a oração) Durante o mês de Ramadan, o povo de Madina acordava para a sua refeição da pré-madrugada com a voz de um deles, e parava de comer, observando o jejum que começava quando o outro proferia o chamamento. Bilal acordava as pessoas à noite para as orações, e o Ibn Umm Maktum esperava a oração da madrugada, jamais deixando do fazê-lo.

O abençoado Profeta (S) tinha o Ibn Umm Maktum em tamanha alta estima, que o deixava encarregado dos assuntos de Madina quando necessitava fazer uma viagem. Uma dessas ocasiões foi quando os muçulmanos retomaram Makka.

Após a batalha de Badr, Allah revelou versículos do Alcorão ao abençoado Profeta (S), nos quais Ele falou acerca dos combatentes (mujahidun). Allah disse que aqueles que iam para a guerra (jihad) tinham um status mais elevado aos Seus olhos do que aqueles que ficassem para trás. A intenção da revelação era encorajar as pessoas a empreenderem o jihad e não ficarem em casa. O efeito desses versículos sobre o Ibn Umm Maktum foi tal, que ele se viu privado da chance de participar do mérito da batalha. Foi ter com o abençoado Profeta (S), e disse:

“Ó Mensageiro de Allah, se eu fosse capaz, iria empreender o jihad!” Depois começou a dirigir súplicas a Allah, orando sinceramente para que Ele revelasse um versículo (aya) sobre o embaraço dele e daqueles como ele, dizendo:

“Ó Allah, Revela algo dizendo que eu estou excluído!”

Não demorou muito para que Allah respondesse as suas súplicas. Aconteceu que o abençoado Profeta (S) estava sentado com o seu escriba, o Zaid b. Sabit, quando um torpor desceu sobre o Profeta (S). Uma das suas pernas caiu sobre a perna do Zaid que, mais tarde, disse que parecia mais pesada que uma rocha. Então o Profeta (S) voltou ao estado normal, e disse para o Zaid escrever:

“Os Crentes que ficam para trás não são do mesmo quilate daqueles que empreendem o jihad em prol de Allah...”

O Ibn Umm Maktum ficou de pé, e disse:

“Ó Mensageiro de Allah, e quanto àqueles que são incapazes de empreender o jihad?”

Ele mal havia terminado a pergunta, e o estado de transe voltou ao abençoado Profeta (S); e quando passou, ele pediu para o Zaid que lesse o que havia sido escrito, e ele leu:

“Os Crentes que ficarem para trás...” depois do que o Profeta (S) disse:

“Acresceta isto: ‘e que não tiverem desculpas...’”

O desejo de Ibn Umm Maktum foi satisfeito por Allah, Que o livrou, bem como àqueles como ele, da culpa de não empreenderem o jihad. A despeito disso, sua ambição de ser prazeroso aos olhos de Allah não lhe permitia estar contente com o ficar em casa. Ele resolveu empreender o jihad, por causa do seu nobre espírito que só podia ser satisfeito com ações nobres. Daquele dia em diante, ele decidiu jamais estar ausente duma batalha, e até planejava o seu papel nela. Escolheu postar-se entre as fileiras, segurando o estandarte dos muçulmanos. Ele dizia:

“Segurá-la-ei e a manterei no lugar para vós, pois sou cego e sem capacidade para fugir.”

No 14º ano da hégira, o Omar b. al Khattab planejava integrar os pagãos persas no país deles, e deixar esse país em aberto para os pregadores do Islam. Ele escreveu para os seus governadores, em todas as regiões:

“Enviai-me qualquer um e todos que tenham uma montaria, armadura ou arma, e apressai-vos!” Voluntários muçulmanos acorreram para Madina vindos de todos os quadrantes do Estado, sendo que um deles foi o Abdullah b. Umm Maktum.

O Al faruq Omar deu ao Sad b. Waqqas o comando do exército, e se despediu dele.

Quando o exército chegou a Al Kadisiya, o Abdullah b. Um Maktum deu um passo à frente, usando uma vestimenta de armadura, e portando toda uma parafernália de armas. Tomou a seu encargo a tarefa de segurar o estandarte dos muçulmanos, e o proteger até à morte.

Os dois exércitos se entrechocaram ferozmente por três cruéis dias. A batalha foi a mais cruenta do que qualquer outra jamais testemunhada pela história. O terceiro dia revelou que Allah havia concedido aos muçulmanos uma estonteante vitória, e que o mais poderoso império do mundo havia sido derrubado. A mais longa linha de imperadores a governarem a terra tinha chegado ao fim e, com eles, a idolatria tinha chegado ao fim. O estandarte da crença num Único Allah foi erguido, para assim permanecer até ao final dos tempos.

O custo dessa vitória foi de centenas de mártires. Entre eles estava o Ibn Umm Maktum, que foi encontrado no campo de batalha, coberto de sangue, apertando contra o peito o estandarte do Islam.


Capitulo 19

Majza’a b. Sawr al Sadusi