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Os intrépidos heróis dos exércitos
de Allah sacudiram de si a poeira da batalha de Al Kadisiya,
jubilosos com a vitória que lhes fora concedida por Allah. Invejavam
os irmãos (no Islam) martirizados, por causa das recompensas que de
Allah iriam receber, e anelavam por outra batalha que fosse
rivalizar à de Al Kadisiya, em esplendor.
Esperavam uma ordem que viesse de Omar b. al Khattab, o califa do
abençoado Profeta (S), para que dessem continuidade ao jihad, até
que arrebatassem de Cosroé o trono. A ansiedade daqueles abençoados
soldados não foi em vão, pois não passou muito tempo para que um
mensageiro do califa chegasse a Kufa. Trazia consigo uma ordem de Al
Faruk dirigida ao governador Abu Mussa al Achari, para que dirigisse
seus soldados a um local onde iriam juntar-se às forças muçulmanas
de Al Basra. Iriam sair juntos para Al Ahwaz, onde iriam perseguir e
subjugar a Hormuzan, líder das forças persas pagãs. Iriam também
libertar a cidade de Tustar, a jóia mais brilhante da coroa imperial
da Pérsia.
A mensagem enviada pelo califa para o Abu Mussa continha ainda uma
ordem específica para que as forças incluíssem o intrépido cavaleiro
Majza’a b. Sawr al Sadusi, o inconteste comandante da tribo de Bakr.
Abu Mussa agiu de acordo com a ordem do Emir dos Crentes, e preparou
seu exército, colocando o Majza’a b. Sawr al Sadusi ao seu lado
esquerdo. Ele juntou saus forças com as forças vindas de Al Basra e,
juntos, saíram para lutar por suas crenças. Libertaram uma cidade
após a outra, escorraçando o inimigo das suas fortalezas. O Hormuzan
fugiu antes deles, procurando refúgio num lugar após outro, até que
chegou a Tustar. Aí procurou abrigo junto às suas forças.
Tustar era a mais linda das cidades da Pérsia, com um clima adorável
e consistentes fortificações para a protegerem. Era o centro da
civilização, que tinha sido construída havia muitos séculos, e
habitada desde os tempos mais remotos. Fora construída num morro
alongado que parecia o corpo dum cavalo. No sopé do morro estava a
ravina Dujayal, que abastecia de água a cidade. A água era bombeada
para cima, a um reservatório com um chafariz, tudo isso construído
pelo imperador Sabur. Aquela maravilhosa construção foi feita com
pedras enormes e bem unidas, reforçadas por fortes pilares de ferro,
sendo que os canos do reservatório eram alinhados com chumbo.
Rodeando toda a cidade de Tustar havia uma muralha alta e espessa.
Dizem os historiadores ser ela a primeira e maior muralha a ser
erigida em torno da cidade. Do lado de fora da muralha, Hormuzan
ordenou que uma larga trincheira fosse cavada. Não era um obstáculo
fácil de ser transposto e, atrás dela, se postava o fino dos
exércitos da Pérsia.
As forças muçulmanas sitiaram a cidade de Tustar, acampando, por
dezoito meses, do lado externo da trincheira. Durante esse tempo,
engajaram-se em oitenta batalhas com as forças persas. Cada batalha
começava com duelos entre cavaleiros das duas forças, antes que se
transformassem em sangrento entrevero.
Majza’a b. Sawr provou sua coragem nesses duelos, surpreendendo
tanto a seus compatriotas como a seus inimigos. Ele matou uma
centena de cavaleiros inimigos em duelos, sendo que a simples menção
do seu nome causava terror nas fileiras persas, assim como inspirava
orgulho e fidalguia entre os muçulmanos. Por causa dos seus feitos,
mesmo aqueles que nunca antes tinham ouvido falar de Majza’a ficaram
sabendo porque o califa fora tão insistente quanto à sua presença no
exército, na prática do jihad.
Durante a última das oitenta batalhas, os muçulmanos atacaram tão
ferozmente, que os persas foram forçados a abandonar as pontes sobre
suas trincheiras, e procurar abrigo atrás das inexpugnáveis muralhas
das suas fortalezas.
Após esse longo período de paciência, os muçulmanos constataram que
sua situação se tornara pior. De atrás das muralhas da cidade, os
persas arremessavam suas setas por sobre os muçulmanos, que eram um
alvo fácil. Faziam ainda descer das muralhas ganchos em brasa presos
a correntes de ferro. Sempre que algum dos soldados muçulmanos
tentava escalar a muralha, os persas o apanhavam com os ganchos e o
içavam para cima, onde encontrava a morte em atroz agonia.
Conforme o desânimo dos muçulmanos crescia, eles oravam a Allah com
todo o coração, humildemente implorando que Ele lhes abrandasse as
dificuldades e lhes concedesse a vitória sobre seus inimigos, que
eram hostis à sua própria crença em Allah. Abu Mussa estacava, de
pé, e estudava a enorme muralha de Tustar, na desesperança de
encontrar um meio de a transpor. Um dia ele assim permanecia, quando
uma flecha foi atirada de cima da muralha e caiu perto dele. Quando
a viu, notou que havia um recado atado a ela. O recado dizia:
“Creio que posso confiar em vós, muçulmanos. Estou à procura de
anistia para mim, minha família, minhas posses, e para aqueles que
me seguem. Em troca, irei mostrar-vos uma passagem que vos levará
para dentro da cidade.”
Abu Mussa escreveu uma promessa de salvaguarda para a pessoa que
arremessara a flecha, e a arremessou de volta, do mesmo modo.
O homem escolhera os muçulmanos, por causa da reputação destes
quanto à verdade e fidelidade das suas promessas. Ele se esgueirou
para fora da cidade, encoberto pela escuridão da noite, foi ter com
Abu Mussa, e confiou-lhe os detalhes da sua história, dizendo:
“Nós somos da nobreza do nosso povo. Porém, Hormuzan matou meu irmão
mais velho e se apoderou da sua família e das suas posses. Ele nutre
uma aversão tal quanto a mim, que sinto que meus filhos e eu não
estamos seguros das suas garras. Eu prefiro a vossa integridade à
injustiça dele, e a vossa lealdade à sua traição. Apresenta-me uma
pessoa que seja brava e inteligente, e que saiba nadar bem, e eu lhe
mostrarei o caminho.”
Abu Mussa chamou Majza’a b. Sawr al Sadusi, e lhe contou
privativamente os novos desenvolvimentos, e disse:
“Ajuda-me, trazendo a mim um dos teus homens que seja inteligente,
determinado e que saiba nadar.”
“Permite que eu seja esse homem, ó comandante!”, disse o Majza’a.
“Se é o que desejas, então vai com as bênçãos de Allah” respondeu o
comandante. Então Abu Mussa pediu-lhe que memorizasse o caminho,
especialmente onde se encontrava a passagem, que determinasse onde
Hormuzan haveria de ser encontrado, que notasse como ele era, e que
não iniciasse ato nenhum que despertasse suspeitas.
Na escuridão, o Majza’a b. Sawr saiu com o seu guia persa, que o
dirigiu dentro dum túnel subterrâneo que ligava o rio à cidade. Em
certos lugares o túnel era largo o bastante para que ele vadeasse
através da água. Em outros, ele era tão estreito, que Majza’a era
obrigado a nadar. Em alguns lugares o rio era serpeante, com saídas
que iam para fora do túnel principal, ao passo que outros segmentos
eram retos e fáceis de serem transpostos. Eles continuaram desse
modo, até que atingiram a abertura do túnel que adentrava a cidade.
O guia mostrou ao Majza’a o matador do seu irmão, o general Hormuzan,
e o local onde ele se refugiava.
Assim que Majza’a viu o general inimigo, sua primeira reação
manifestou-se num impulso de atirar uma flecha e acabar com ele. Mas
imediatamente lembrou-se da ordem dada por Abu Mussa de não iniciar
nenhuma ação. Ele controlou a sua exuberância, reprimiu-se e,
silenciosamente, voltou para o acampamento muçulmano antes do romper
da aurora.
Abu Mussa selecionou trezentos dos mais bravos soldados muçulmanos
que possuíam grandes resistências e habilidades natatórias. Deu-lhes
como comandante o Majza’a, deles se despediu, dando-lhes suas
ordens. Eles concordaram com que o brado Allahu akbar (Allah é o
maior!) iria ser o sinal para que as forças muçulmanas atacassem a
cidade.
Majza’a ordenou que seus homens se vestissem o mais sumariamente
possível, para que a água não fizesse peso em suas vestes, e não os
obstruísse, e avisou-os que nada carregassem além das suas espadas,
que amarravam contra seus corpos por sob as vestes. Eles iniciaram
sua missão cedo à noite, após ter escurecido.
Majza’a b. Sawr e seus corajosos soldados passaram duas horas
debatendo-se contra os obstáculos do perigoso túnel; e algumas vezes
alguns deles sucumbiam, pois quando Majza’a alcançou a saída para a
cidade, constatou que o túnel havia engolido duzentos e vinte dos
seus homens, restando apenas oitenta.
Tão logo estavam de todo seguros em terra seca, puxaram das espadas,
caíram sobre os guardas e, silenciosamente, os mataram. Abriram os
portões, entoando o brado Allahu akbar! Como resposta, veio o brado
dos seus irmãos muçulmanos que estavam do lado de fora.
De madrugada, os soldados muçulmanos enxamearam para dentro da
cidade. A batalha que teve lugar entre eles e os inimigos de Allah
foi uma das mais ferozes e sangrentas de toda a história. Em meio à
briga, o Majza’a b. Sawr divisou a Hormuzan, e correu ao encontro
dele, com a espada em riste. O general ficou rapidamente misturado
às fileiras, e foi perdido de vista. Uns momentos depois, Majza’a
novamente o viu, e encetou uma carga contra ele.
Majza’a e Hormuzan se entrelaçaram com as espadas. Cada qual queria
desfechar o golpe mortal; a espada de Majza’a errou o alvo, ao passo
que a de Hormuzan acertou-o. O intrépido e heróico cavaleiro caiu
mortalmente ao solo, satisfeito com o que Allah lhe permitira que
conseguisse. A força muçulmana continuou a lutar, até que Allah lhes
concedeu a vitória; trouxeram cativo a Hormuzan.
Os portadores das boas-novas da vitória dirigiram-se a Madina para
encontrarem-se com o califa Al Faruk. Consigo portavam o cativo
Hormuzan, sua coroa incrustada de gemas e sua capa de brocado de
ouro, para que o califa os pudesse ver. Portavam também suas
condolências ao califa pela perda do seu cavaleiro campeão, o
Majza’a b. Sawr. |