|
Na primeiríssima expedição
missionária, Musab b. Umair foi à cidade de Yasrib. Ele permaneceu
na casa de Assad b. Zurara, um dos nobres da tribo de Al Khazraj;
ele usou a casa do seu hospedeiro como um centro para a chamada do
povo para Allah, e informou-os quanto à abençoada missão do Profeta
Muhammad (S).
As pessoas jovens de Yasrib formavam uma audiência ávida quanto ao
moço Musab b. Umair. Encontravam nele muita coisa que era
interessante: a doçura do seu discurso, a clareza das suas
discussões, suas maneiras gentis, e a qualidade luminosa que a sua
fé imprimia em seu formoso rosto.
O que atraía mais fortemente as pessoas, mais que tudo, era o
Alcorão, que Musab lhes recitava de tempos em tempos. Com sua voz
maviosa e expressiva, ele recitava os versículos sagrados da
revelação, resultando que as pessoas que eram costumeiramente
indiferentes eram tomadas pela emoção; as lágrimas fluíam, e nenhuma
simples assembléia terminava sem que as pessoas dessem um passo à
frente e declarassem sua adesão ao Islam, juntando-se às hostes dos
crentes.
Um dia, Asad b. Zurara saiu com o seu convidado, Musab b. Umair,
para que pudessem encontrar-se com um grupo de indivíduos do clã de
Abd al Ashhal e os convidar ao Islam. Entraram num pomar que
pertencia ao clã, e se sentaram próximo a um poço cintilante, sob as
sombras das tamareiras.
Logo Musab foi rodeado por um grupo de pessoas, algumas das quais já
haviam aceitado o Islam, e algumas das quais queriam meramente ouvir
falar sobre ele. Musab começou a falar, descrevendo as benesses da
fé que lhes era apresentada. A audiência o ouviu com total atenção,
enlevadas com o brilho do que ele dizia.
Aconteceu que enquanto aquela assembléia estava tendo lugar, alguém
levou notícias dela para Usaid b. al Hudhair e Saad b. Moaz. Estes
eram dois dos chefes da tribo de Al Aws, e seu informante lhes disse
que Asad b. Zurara havia incitado a Musab a levar sua pregação
praticamente às suas portas.
“Não há ninguém como tu, ó Usaid”, disse Sad, “portanto vem comigo,
e iremos ter com este jovem makkense. Ele veio para impingir idéias
aos nossos subalternos, e para zombar das nossas deidades. Vem,
escorraça-o, e dize-lhe que não ponha os pés nos nossos lares
novamente. Se ele não fosse um convidado do meu primo Asad b. Zurara
– e sob a sua proteção –, teria já feito alguma coisa quanto a ele,
e poupado a ti o contratempo.”
Usaid pegou da sua lança e dirigiu-se para o pomar. Quando Asad b.
Zurara o viu aproximando-se, disse:
“Cuidado, Musab! O homem é o chefe do seu povo, com a mais salutar
das mentes e com a maior integridade. Seu nome é Usaid b. Hudhair.
Se ele aceitar o Islam, muitas pessoas irão seguir o seu gesto.
Convida-o ao Islam duma maneira que agrade a Allah. Faze o melhor
que puderes para convencer a Usaid.”
Usaid permaneceu de pé perante a assembléia, e olhava por cima para
Musaab e seu companheiro. Então ele falou, dizendo:
“Que vos trouxe aos nossos domínios, e quem vos impingiu ambições
entre os nossos subalternos? Saí já desta área se valorizais vossas
vidas!”
Musab voltou seu luminoso rosto para Usaid e, em seu sincero e
atraente estilo, respondeu-lhe, dizendo:
“Posso apresentar algo melhor do que isso para um homem que é o
chefe do seu povo?”
“De que se trata?”, perguntou Usaid.
“Senta-te conosco e ouve-nos”, disse Musab, “e se gostares do que
temos para dizer, poderás aceitá-lo. Se não o achares do teu agrado,
nós partiremos e não mais vos aborreceremos.”
“O que tu sugeres é justo”, disse Usaid. Enfiando a ponta da sua no
solo, para que ficasse de pé – como para lembrar a todos que havia
vindo com intenções histis –, ele se sentou. Musab dedicou a Usaid
toda a sua atenção, explicando a ele as verdades ensinadas pelo
Islam; então recitou para ele uma parte do Alcorão. Usaid reagia
favoravelmente, e sua expressão ia-se tornando cada vez mais
concordante, até que exclamou:
“Quão belo é tudo isso que disseste, e que coisa gloriosa é essa tua
recitação! O que deverei fazer se quiser tornar-me muçulmano?”
“Terás que banhar-te e purificar tuas vestes”, disse Musab, “e
depois deverás testificar que não há deus a não ser Allah, e que
Muhammad (S) é o Mensageiro de Allah. Depois deverás fazer duas
rakát (inclinações).”
Usay foi até ao poço, fez a ablução com a água, testificou que não
havia outra divindade além de Allah, e que Muhammad (S) era o
Mensageiro de Allah. Por fim, orou dois rakát, tornando-se assim,
daquele dia em diante, um membro das fileiras dos crentes, em adição
a ser um dos mais famosos cavaleiros dentre os árabes e um renomado
chefe da tribo dos Al Aws.
Seu próprio povo o apelidou de “o perfeito”, por causa da sua mente
sadia, sua origem nobre, e pelo fato de que ele era um mestre na
pena (caneta), bem como na espada. Em adição à sua perícia como
cavalariano e arqueiro, ele era alfabetizado, numa sociedade em que
o saber ler e escrever era uma rara habilidade. Por causa da sua
aceitação do Islam, seu amigo Saad b. Muadh também se tornou
muçulmano; e, devido exemplo demonstrado pelos dois, muitas pessoas
da tribo dos Al Aws entraram para o Islam. Como resultado, sua
cidade, Yaçrib, tornou-se o lugar onde o abençoado Profeta (S) e os
crentes fizeram sua histórica migração – a Hégira. Yaçrib tornou-se
Madina, o refúgio dos crentes e a base para o grande império do
Islam.
A partir da hora em que Usaid b. Hudhair ouviu pela primeira vez o
Alcorão, recitado por Musab b. Umair, ele o amou profundamente. Ele
ficou tão ávido quanto ao Alcorão, como se este fosse água fresca e
cristalina, e ele estivesse a morrer de sede. Quando ele não estava
engajado em jihad, lutando por suas crenças, era sempre visto a
estudar e recitar a Escritura. Tinha uma voz melodiosa, dicção
perfeita e um brilhante estilo de leitura. Nada havia de que ele
gostasse mais do que recitar o Alcorão na calada da noite, quando as
pessoas estavam dormindo e as almas estavam tranqüilas.
Os honoráveis Companheiros procuravam oportunidades de lhe ouvirem a
recitação, disputando uns com os outros quem o iria ouvir com mais
freqüência. Os que tinham a felicidade de ouvi-lo ouviam a recitação
tão perfeitamente como quando o Alcorão foi revelado ao Profeta
Muhammad (S).
Sem ser do conhecimento de Usaid e dos Companheiros, havia outras
pessoas que também tinham prazer em ouvir a recitação de Usaid.
Numa noite, Usaid estava sentado no quintal de trás da sua casa,
tendo seu filho Yahya a dormir perto dele. Não longe dali, ele havia
amarrado o seu cavalo de guerra, que ele mantinha preparado para o
jihad pela a causa de Allah. A noite era calma e tranqüila, com um
céu claro no qual as estrelas pareciam observar a terra dormente,
com a afeição de uma mãe para com seu filho. De súbito, Usaid sentiu
uma vontade de realçar a beleza da noite com os sons do Alcorão; e
sua melodiosa voz começou:
“Alef, Lam, Mim.Eis o Livro que é indubitavelmente a orientação dos
tementes a Allah;que crêem no desconhecido, observam a oração e
gastam daquilo com que os agraciamos; que crêem no que te foi
revelado (ó Muhammad), no que foi revelado antes de ti e estão
cientes da Outra Vida”5
De repente ele ouviu que seu cavalo corcoveava com tanta força, que
quase arrebentou suas amarras. Ele parou de recitar, e o cavalo
ficou quieto e calmo.
Usaid voltou a recitar:
“São aqueles que seguem a diretriz apresentada por seu Senhor, e
serão aqueles que irão alcançar a satisfação plena.”
O cavalo começou a coicear mais intensamente do que antes. Usaid
ficou silente, e o animal tornou-se novamente calmo.
Ele repetiu aquilo por várias vezes; toda vez que ele começava a
recitar, o cavalo ficava excitado, e quando ele parava, o animal
ficava calmo. Ocorreu a Usaid que o cavalo poderia pisotear o seu
filho Yahya, e ele se levantou e acordou o menino. Ao fazer isso,
olhou para cima. Lá, no céu, viu uma nuvem que era mais brilhante do
que qualquer jamais vista pelo homem. Ela estava juncada do que
pareciam ser lanternas, e iluminava o céu em todas as direções. Ele
a observava conforme ela se elevava cada vez mais, até que não mais
pôde vê-la.
Quando Usaid acordou, pela manhã, foi diretamente ter com o
abençoado Profeta (S), e lhe contou o que havia acontecido na noite
anterior. O Profeta (S) lhe disse:
“Aqueles eram os anjos que te ouviam, ó Usaid. Se tu tivesses
continuado a ler, eles teriam vindo tão perto, que qualquer um teria
sido capaz de os ver.”
Em adição ao seu grande amor pelo Livro de Allah, Usaid também
desenvolveu um grande amor pelo Mensageiro de Allah (S). Usaid
costumava dizer, de si mesmo, que sentia uma grande clareza de
espírito e a maior fé quando lia o Alcorão, e quando observava o
Mensageiro de Allah (S), e quando o ouvia falar. Ele gostava tanto
do Profeta (S), que o seu maior desejo era ter a oportunidade de o
tocar ou de o beijar.
Finalmente foi-lhe dada a oportunidade. Um dia, Usaid estava
entretendo os Companheiros com suas estórias humorísticas; o
abençoado Profeta (S), todo risonho, cutucou maliciosamente a Usaid.
Este, fingindo sentir dor, gritou:
“Tu me machucaste, ó Mensageiro de Allah (S)!”
“Podes vingar-te, e me cutucar também, ó Usaid”, disse o abençoado
Profeta (S).
“Mas tu estás usando uma camisa extra, e eu não estava usando camisa
quando tu me cutucaste”, objetou Usaid.
Então o Mensageiro de Allah (S) levantou a camisa, e Usaid o
abraçou; ao invés de o cutucar, ele beijou-lhe a lateral, e disse:
“Ó Mensageiro de Allah, eu seria capaz de trocar os meus pais por
ti. Eu tenho desejado beijar-te desde que te vi, e agora satisfiz o
meu desejo.”
O Mensageiro de Allah (S) retribuía o amor de Usaid, e sempre lhe
lembrava que jamais poderia esquecer que Usaid fora um dos primeiros
convertidos ao Islam, que Usaid o havia defendido durante a batalha
de Uhud, e que havia recebido sete ferimentos sérios naquela
ocasião. O Profeta (S) estava ciente de que Usaid era uma pessoa de
linhagem entre o seu povo, e de que poderia contar com ele, caso
precisasse de alguém para falar em seu benefício junto ao povo de
Usaid.
Usaid relatou a seguinte história:
“Uma vez eu fui ter com o Mensageiro de Allah (S), e lhe contei que
havia uma família, dentre os Ansares, que era muito pobre, que os
cabeças da casa eram mulheres, que não tinham homens adultos que a
provesse. O Profeta (S) disse:
“Chegaste muito tarde, ó Usaid, pois já distribuí todo o dinheiro
destinado à caridade que nos estava disponível. Se souberes de que
algo está para ser doado, lembra-me sobre essa família.’
“Logo depois, os despojos da Batalha de Khaibar foram entregues ao
Profeta (S). Ele os distribuiu entre os muçulmanos, dando
generosamente aos ansares, especialmente à família necessitada.
Disse-lhe:
“Que Allah te recompense bastante, por causa disso, ó Profeta de
Allah (S)!’
“‘Eu peço que Allah conceda aos ansares a melhor das recompensas,
porque desde que eu vos conheço, tendes sido um povo paciente, que
nada exigis. Depois que eu morrer, constatarás que outros irão ser
mais favorecidos em questões terrenas. Sê paciente, até que me vejas
no Paraíso, onde o nosso ponto de encontro irá ser na fonte de
Kawçar.’
“Quando o califado passou para o Omar b. al Khattab (que Allah
esteja comprazido com ele), ele dividiu alguns dos bens e algum
dinheiro entre os muçulmanos. Enviou uma capa para mim, a qual achei
que era muito pequena. Quando eu estava na mesquita, aconteceu de eu
ver um jovem coraixita que passava por ali. Ele estava usando uma
capa comprida, do mesmo tipo da que Omar me havia enviado. Era tão
comprida, que chegava a arrastar no chão; então lembrei-me do que o
Profeta (S) me havia dito sobre outros serem mais favorecidos, e
mencionei aquilo àqueles que comigo estavam.
“Alguém saiu e foi ter com o Omar e lhe contou o que eu havia dito;
Omar veio a mim apressadamente enquanto eu estava ainda orando. Ele
disse:
“Termina a tua oração; depois vamos conversar.’
“Quando terminei de orar, ele disse:
“Que disseste, exatamente?’
“Contei-lhe o que havia visto e o que dissera, e ele disse:
“Que Deus te perdoe! Enviei aquela capa para um dos ansares que
jurou sua fé em ‘Acaba, e lutou nas batalhas de Badr e Uhud. O rapaz
do Coraix que a está usando comprou-a dele. Achas que eu iria
permitir que as predições do Mensageiro de Allah (S) fossem
acontecer no meu tempo de vida?’ perguntou Ômar.
“Juro por Allah, eu não esperava que elas fossem acontecer no teu
tempo de vida’ respondi”
Usaid não viveu por muito tempo, pois foi durante a autoridade de
Omar que Allah o chamou ao Seu lado. Foi descoberto que Usaid morreu
devendo uma quantia de quatro mil dirham. Seus herdeiros queriam
vender a sua propriedade para pagarem a dívida; mas quando Ômar
soube daquilo, disse:
“Não permitirei que os filhos do meu irmão Usaid fiquem pobres e
dependentes de outros”, e convenceu os credores a aceitarem como
pagamento os grãos produzidos pelas terras, coisa que foi avaliada
em 1000 dirham. |