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Esse distinguido Companheiro,
Abdullah b. Abbás, foi um homem que adquiriu renome, de todas as
maneiras imagináveis. Embora fosse jovem quando o abençoado
Profeta(S) vivia, assim mesmo conseguiu ter a honra de aprender com
ele, e por isso é considerado um dos Companheiros. Desfrutou ainda
da dignidade de ser um membro da família do Profeta(S), de quem era
primo em primeiro grau.
Ele sempre foi conhecido pelos muçulmanos como sendo “o erudito da
nossa comunidade”, porquanto não havia um simples ramo da
escolaridade em que ele não fosse uma autoridade. Adicionado a isso,
estava a sua profunda religiosidade.
Passava seus dias jejuando, e grandes partes das noites orando.
Acordava antes da madrugada, quando todos os outros estavam
quentinhos e a dormirem confortáveis, e orava para o seu Allah por
misericórdia e perdão. Chorava à noite por temor a Allah, sendo que
suas faces estavam permanentemente marcadas pelas lágrimas.
Esse era Ibn Abbás, o erudito religioso da comunidade do Profeta
Muhammad(S). Era o que tinha mais conhecimento sobre o Alcorão com
seus significados, e mais capaz do que qualquer um no tocante a
explicar o mais difícil dos versículos.
Ibn Abbás nascera três anos antes da Hégira; então ele tinha apenas
treze anos quando o abençoado Profeta(S) morreu.
Apesar da sua pouca idade, ele guardou na memória 1.660 dos dizeres
do abençoado Profeta(S), os quais foram documentados nas coleções de
Al Bukhari e Muslim.
Quando ele nasceu, sua mãe o levou imediatamente ao abençoado
Profeta(S). Sem esperar recuperar-se do parto, ou mesmo amamentar a
criança, ela o levou ao seu primo, na esperança de que o Profeta(S)
proferisse uma oração ou abençoasse o bebê. O Profeta (S), de cuja
boca saíra a divina revelação, massageou a boca do neném com sua
própria saliva. Assim o Abdullah b. Abbas começou a sua vida, com
bênção do Profeta(S); eis que não foi a saliva que lhe entrou pela
boca, mas sim a religiosidade e sabedoria do próprio Profeta(S).
No tempo em que tinha seis anos de idade, a criança Abdullah b.
Abbas tornou-se um companheiro constante do abençoado Profeta (S).
Levava a este água para a sua ablução, e permanecia de pé atrás
dele, nas orações. Do mesmo modo que a lua, na sua órbita em torno
da terra, Abdullah b. Abbas seguia os rastros do Profeta (S), como
se fora sua sombra, acompanhando-o mesmo quando ele viajava.
Abdullah b. Abbas não fazia aquilo às cegas; possuía uma mente que
rivalizava com um moderno computador, e estudava, analisava e
memorizava cada palavra e ação do abençoado Profeta (S).
Os textos clássicos da história islâmica muito dizem da vida de Ibn
Abbas, com suas próprias palavras. Ele disse que quando o abençoado
Profeta (S) desejava fazer uma ablução, e ele lhe levava a água, o
Profeta (S) ficava encantado com a sua rapidez. Numa ocasião o
Profeta (S) ficou de pé para proferir a oração, e fez sinal para que
o Ibn Abbas ficasse de pé ao seu lado. Ibn Abbas hesitou e, em vez
disso, ficou de pé atrás do Profeta (S). Quando o Profeta (S)
completou a oração, inclinou-se onde o Ibn Abbas estava sentado, e
perguntou:
“Por que não ficaste em pé ao meu lado, ó Abdullah?”
“Tu és muito distinguido e importante, e eu não sou digno de ficar
ao teu lado, na oração”, respondeu o Abdullah.
O abençoado Profeta (S) ergueu as mãos, em súplica, e disse:
“Ó Allah, concede-lhe sabedoria!”
Allah atendeu a súplica do Seu Mensageiro, e concedeu à criança do
clã do Háchim sabedoria além da média de qualquer outro estudante.
Há uma bem conhecida estória de como o Abdullah b. Abbás utilizou
sua escolaridade e sabedoria para pacificar uma disputa; é como se
segue:
Abdullah b. Abbás e os Khawarij
Quando alguns dos companheiros de Áli b. Abi Tálib (que Allah esteja
comprazido com ele) o desapontaram ao se dissociarem dele, durante a
sua disputa com os Muawiyah, o Abdullah b. Abbas se interpôs. Disse
para o califa Áli:
“Ó Emir dos Crentes, permite-me ir ter com essas pessoas e falar com
elas!”
“Temo que elas te façam mal”, disse Áli.
“Acho que não, se assim quiser Allah”, disse o Ibn Abbas.
Quando Ibn Abbas foi ter com os Khawarij, e os viu, conscientizou-se
de que eles eram muito religiosos e tementes a Allah. Eles lhe deram
as boas-vindas, e perguntaram por que ele havia ido. Quando ele lhes
disse que queria ter uma conversa com eles, alguns deles se
recusaram a ouvir o que ele tinha para dizer; outros, contudo,
estavam dispostos a ouvi-lo. Ele começou perguntando:
“Dizei-me, por que estais irritados com o primo do Mensageiro de
Allah (S), que é também genro dele, e o primeiro homem a acreditar
nele?”
“Há três coisas que nos incitaram à irritação”, responderam.
“Primeiro, ele permitiu em ajustar uma disputa sobre um assunto que
deveria ser ajustado de acordo com o Alcorão. Segundo, ele não
estabeleceu uma batalha contra os Muawiya, e não tomou despojos, nem
fez cativos. Terceiro, ele permitiu que não mais fosse denominado
Comandante de Fé, sendo que o povo lhe tinha dado o comando e jurado
sua aliança a ele.”
“Se eu vos fornecer claras provas tiradas do Alcorão Sagrado, o
Livro de Allah, e da sunnah do Mensageiro de Allah (S), ireis pôr um
fim à disputa?” perguntou Ibn Abbas. Eles concordaram, e ele
começou:
“Iniciemos com a vossa alegação de que Áli permitiu que os homens
assentassem um assunto de religião. O Próprio Allah diz, no Alcorão
Sagrado:
“Ó crentes, não mateis animais de caça quando estiverdes com as
vestes da peregrinação. Quem, dentre vós, os matar intencionalmente,
terá de pagar a transgressão, o equivalente àquilo que tenha morto,
em animais domésticos, com a determinação de duas pessoas idôneas”
(5: 95).
“Eu vos pergunto em nome de Allah, o que tem maior prioridade, que
os homens estabeleçam o custo dum coelho ou duma codorniz, ou que
determinem a melhor maneira de se pôr um paradeiro ao derramamento
de sangue, e findem uma disputa?”
“Claro, pôr um paradeiro ao derramamento de sangue e findar uma
disputa são coisas mais importantes”, responderam.
“Estais convencidos?” perguntou Ibn Abbas.
Quando eles assentiram, ele continuou:
“Quanto à questão de tomar despojos e fazer cativos, eu estou
perplexo. Gostaríeis acaso de ver a vossa mãe, Umm al Muminin Aicha,
sendo concubina, feito uma escrava pagã? Se disserdes que sim, ireis
cometer blasfêmia. E se disserdes que ela não é vossa mãe, ireis
também cometer blasfêmia, pois Allah diz, no Alcorão:
“Um profeta tem mais domínio sobre os crentes do que eles mesmos
(sobre si), e as esposas dele devem ser (para eles) suas mães” (Alc.
33:6).
“Assim sendo, escolhei o que credes ser o certo. Será que vos
convenci?”
Quando eles assentiram, Ibn Abbas continuou:
“Quanto à vossa afirmação de que Áli abdicou a sua posição como Emir
dos Crentes, comparai isso com a ação do abençoado Profeta (S) no
tempo de Al Hudaybiya. Quando ele ditou o texto da trégua aos
pagãos, e lhes disse para porem ‘Mohammad, Mensageiro de Allah (S)’,
disseram:
“Se crêssemos que eras o Mensageiro de Allah, não teríamos declarado
guerra contra ti, ou evitado que fizesses a peregrinação. Nós apenas
iremos escrever ‘Mohammad b. Abdullah’.
“O abençoado Profeta (S) aceitou o desejo deles, dizendo:
“Juro por Allah que eu sou o Mensageiro de Allah, mesmo que negueis
isso.’
“Estais agora convencidos?”
Como resultado daquele encontro, em que o Abdullah b. Abbás
demonstrou sua sabedoria e seu poder de raciocínio, vinte mil dos
secionistas voltaram com sua lealdade a Áli, embora quatro mil deles
se recusassem obstinadamente a aceitar a verdade, permanecendo
inflexíveis em sua determinação de continuarem a disputa.
Abdullah b. Abbás tornou-se um estudante erudito por causa da sua
persistência e diligência. Como já vimos, ele dedicava todo o seu
tempo a aprender com o abençoado Profeta (S). Quando o Profeta
deixou este mundo, Ibn Abbás voltou sua atenção para os
Companheiros, procurando por cada fragmento de conhecimento que
pudesse encontrar. Ele descreveu seus próprios esforços, como se
segue:
“Se eu ouvisse dizer que um dos companheiros do Mensageiro de Allah
(S) sabia de um hadice, eu ia a sua casa mesmo ao meio-dia, hora da
sesta. Não batia à porta, muito embora soubesse que seria convidado
a entrar se escolhesse fazê-lo. Dobrava meu manto num montículo, e
me sentava à porta da frente. Pegava no sono, no calor, e o vento
leve me cobria de areia. O motivo por que eu me humilhava, daquele
jeito, era para que a pessoa soubesse o quanto eu o respeitava, por
seu conhecimento, e fosse induzido a compatilhá-lo comigo. Quando
ele saía para fora e me via daquele jeito, dizia:
“Ó primo do Mensageiro de Allah (S), o que te trouxe até aqui? Se me
tivesses chamado, eu teria ido até ti!’
“Eu respondia:
“Tu mais mereces que eu vá até ti. A escolaridade é que deve ser
procurada, e não precisa procurar por estudantes.’ Então eu lhe
perguntava acerca do hadiss.”
Assim como o Ibn Abbas se humilhava na busca do conhecimento, também
fazia honra aos eruditos. Uma ocasião Zaid b. Sábit queria ir a
algum lugar em seu cavalo. Zaid havia sido o escriba ao qual o
abençoado Profeta (S) ditara as palavras do Alcorão. Era também o
professor liderante de Madina, e o mais conhecedor das questões de
heranças e de legados. Abdullah estava de pé em frente a ele,
humilde como um servo, segurando a sela e as rédeas do cavalo de
Zaid, para que este pudesse montar. Zaid lhe disse: “Deixa esse
trabalho para outrem, ó primo do Profeta!(S)”
“Esta é a maneira que se supõe tratemos os nossos eruditos”,
respondeu Abdullah b. Abbás.
“Dá-me tua mão!” pediu Zaid; e quando o Ibn Abbás a estendeu, Zaid a
pegou, curvou-se e a beijou, dizendo:
“E este é o modo que se supõe tratemos os familiares do nosso
Profeta.”
Ibn Abbás persistia na sua busca do conhecimento, até que atingiu um
nível que chegava a surpreender os eruditos mais velhos. O mestre
Masruk b. al Ajda descrevia-o deste modo:
“Quando eu olhava para ele, diria que era o homem mais formoso que
já vira. Quando ele falava, diria que era o homem mais eloqüente que
já ouvira; e quando discorria sobre algo, diria que era o homem mais
erudito.”
Quando Ibn Abbás alcançou o nível de aprendizado a que aspirava,
pôs-se a compartilhar dos seus conhecimentos com outros, e tornou-se
professor. Sua casa transformou-se no primeiro colégio para os
muçulmanos. A única diferança entre os modernos colégios e o de Ibn
Abbás é que os colégios de hoje em dia têm dúzias de professores, ao
passo que o dele tinha um só professor – ele mesmo. Um dos pupilos
de Ibn Abbás dizia que as maravilhas da escolaridade de Ibn Abbás
eram suficientes para que toda a tribo dos coraixitas se ufanasse, e
que havia histórias suficientes para que todos os membros da tribo
tivessem algo novo para dizer. Num dia – de acordo com esse mesmo
estudante –, as alamedas que davam para a casa de Ibn Abbas estavam
tão cheias de pessoas que esperavam para lhe fazerem perguntas, que
ninguém podia passar. O estudante foi até onde estava o Ibn Abbás, e
lhe contou acerca da multidão que esperava por ele. Então o mestre
pediu ao rapaz que lhe levasse água; e, após fazer sua ablução,
disse ao estudante:
“Dize a todos aqueles que têm perguntas a fazer sobre o Alcorão, e
querem saber como o ler, que entrem.”
O estudante fez como lhe havia sido dito, e as pessoas adentraram a
casa. Encheram a sala de Ibn Abbás e o quintal adjacente. Ele
respondeu a todas as perguntas, e lhes proporcionou conhecimentos
adicionais; então disse: “Agora, dai lugar a vossos irmãos”, e todos
partiram.
Então Ibn Abbas pediu ao seu pupilo que levasse para dentro todos
aqueles que tivessem perguntas a fazer sobre o significado do
Alcorão Sagrado. Quando entraram, encheram também a sala e o
quintal. Uma vez mais o Ibn Abbas respondeu a todas as perguntas
deles, e lhes proporcionou conhecimentos adicionais. Essa mesma cena
foi repetida por aqueles que buscavam conhecimento sobre fiqih,
herança, língua árabe e filologia.
A constante procura pelos conhecimentos e pela hospitalidade de Ibn
Abbas finalmente fez com que ele passasse a ensinar separadamente as
questões, em dias separados, os quais ele dividiu como se segue:
fiqih, história islâmica, poesia, a história pré-islâmica dos
árabes, e explicação do Alcorão.
Os maiores eruditos que freqüentavam as aulas dele achavam que ele
era mais conhecedor do que eles próprios. Nunca era incapaz de
responder uma simples pergunta. Até os califas dos Estados
Muçulmanos dependiam dele para conselhos, embora ele fosse ainda
muito jovem. Se o califa Ômar b. al Khattab se encontrasse em alguma
dificuldade e precisasse de conselho, convidava todos os veneráveis
Companheiros para irem até ele, e compartilharem com ele suas
opiniões. Se o Ibn Abbás estivesse presente, Omar mostrava-lhe
respeito e lhe dava o melhor assento, dizendo: “Tenho um problema do
tipo que só tu podes resolver.”
Uma ocasião Omar foi acusado pelas pessoas de demonstrar excessivo
respeito a um homem tão jovem como o Abdullah na presença de homens
muito mais idosos, ao que Omar disse:
“Ele é um jovem feito para liderar homens mais velhos; possui uma
mente inquiridora e uma natureza perceptiva.”
Embora Ibn Abbás se tivesse devotado a ensinar estudantes de
escolaridade islâmica, não se esquecia de que o público, em geral,
tinha o direito de se beneficiar dos seus conhecimentos. Ele
mantinha aulas de interesse geral, durante as quais proferia
sermões. Um dos seus mais famosos sermões foi como se segue:
“Vós, que cometei pecados, não vos sentis seguros quanto aos
resultados, pois o que decorre do pecado é mais sério do que o
próprio delito. A vossa falta de vergonha perante os anjos, que vos
testemunham quando cometeis pecados, é mais séria do que o próprio
delito. O vosso sorrir, quando pecais – pois vos esqueceis do
castigo de Allah –, é coisa mais séria do que o próprio pecado. O
vosso deleite, se tendes a oportunidade de cometer pecado, é mais
sério do que o próprio crime. Mesmo o vosso desapontamento, se
perdeis uma chance de pecar, é mais sério do que o próprio pecado.
Quereis saber o que é mais sério do que o pecado? É o fato de que
ficais aterrorizados com a possibilidade de que ireis ser
descobertos e ver a vossa reputação danificada, mas não temeis o
conhecimento de que Allah vos vê.
“Sabeis, acaso, qual foi o pecado de Jó, e por quê razão o
Todo-Poderoso Allah o testou, fazendo com que perdesse sua saúde e
riqueza? Foi tão-somente porque ele se recusou a ajudar um pobre
homem que lhe pediu proteção quanto a um opressor!”
Ibn Abbas não era o tipo de pessoa que ensinava mas não vivia o que
pregava. Passava os dias a jejauar e as noites a orar. O escritor
Abdullah b. Mulaykah descreveu-o como se segue:
“Saí numa viagem com o Ibn Abbás, de Makka para Madina. Se parávamos
para descansar, ele passava parte da noite a orar, enquanto todos os
outros dormiam. Numa noite eu o ouvi recitar:
“‘Então os momentos finais da morte chegaram (os anjos dirão): Isto
é o que estáveis tentando evitar.’ E ele continuou a repetir isso,
soluçando, até ao romper da aurora.”
O rosto de Ibn Abbás era belo e radiante; e o que tornava
extraordinária sua aparência era o fato de que sua constante
lamentação, por temor a Allah, deixava marcas em seu rosto, feito
pegadas descendo-lhe pelas faces lisas.
A fama de Ibn Abbas crescera tanto, que num ano em que ia na mesma
peregrinação em que também ia o califa Muawiyah, embora este fosse o
líder de um império, e tivesse consigo um cortejo de conselheiros e
guardas, e Ibn Abbas não tivesse poder ou autoridade, o sequito que
seguia com Ibn Abbas era maior do que o do califa.
Ibn Abbas viveu por setenta e um anos, durante os quais prodigalizou
a comunidade de conhecimento, compreensão e sabedoria. Quando
morreu, a oração do seu funeral foi liderada por Muhammad b. al
Hanafiya, e foi assistida por uns poucos Companheiros que ainda
estavam vivos, bem como pelos líderes da geração seguinte. Enquanto
estavam cobrindo o seu túmulo com terra, ouviram de súbito uma, voz
que não era humana, recitar:
“E tu, ó alma em paz, retorna ao teu Senhor, satisfeita (com Ele) e
Ele satisfeito (contigo)! Entra no número dos Meus servos! E entra
no Meu Paraíso!” (89:27-30). |