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“Alguns lares são lares de fé;
alguns lares são lares de hipocrisia. O lar dos filhos de Micarrin é
um dos lares de fé.”
As terras das tribos dos Muzayna ficavam perto da cidade de Yaçrib,
na estrada entre ela e a cidade de Makka. Quando o Mensageiro de
Allah (S) realizou a Hégira para Madina, a tribo dos Muzayna
principiou a ouvir, dos viajantes que iam e vinham entre as duas
cidades, falar acerca do Profeta (S), e tudo o que ouviam sobre ele
era positivo.
Numa tardezinha, o Al Numan b. Micarrin al Muzani, chefe da tribo,
estava sentado com o seu círculo de amigos, que incluía seus irmãos
e os mais velhos da tribo. Ele lhes falou, dizendo:
“Povo meu, juro por Allah que nada ouvimos sobre Muhammad que não
seja coisa boa. Tudo o que ouvimos constata que ele está conclamando
as pessoas para a misericórdia, a retidão e justiça. Por que
deveríamos retardar-nos em ir até ele, quando todos os mais estão
indo até ele às pressas? Estou resolvido a ir vê-lo pela manhã. Se
algum de vós deseja me acompanhar, que se prepare para a viagem.”
É óbvio que as palavras do Al Numan encontraram ouvidos receptivos,
pois logo que rompeu a aurora, ele encontrou esperando, já prontos,
seus dez irmãos, mais quatrocentos cavaleiros dos Muzayna. Estavam
prontos para ir com ele ao encontro do Profeta (S), e entrar para a
religião de Allah.
Porém, o Al Numan achou que era impróprio ir a casa do Profeta (S),
juntamente com aquela enorme multidão, sem levar um presente para os
muçulmanos. Aquele havia sido um ano improdutivo, sem chuvas,
deixando a tribo dos Muzaynah sem grãos nem gado poupados. Assim, Al
Numan foi a sua própria casa e a casa dos seus irmãos, a coletar
umas poucas ovelhas que haviam sido poupadas pela seca. Mantendo-as
à frente, ele foi ter com o Profeta (S) e, perante este, jurou sua
fidelidade e a dos seus irmão ao Islam.
Toda Yaçrib foi acometida de júbilo com a nova aceitação do Islam
feita pelo Al Numan e por seus companheiros. Nunca havia acontecido,
entre os árabes, de onze irmãos jurarem fidelidade ao Islam,
juntamente com quatrocentos cavaleiros. O abençoado Profeta (S)
ficou deleitado com a aceitação de Al Numan ao Islam. O presente das
ovelhas foi aceito pelo Próprio Allah, Que revelou o seguinte aya:
“Entre os beduínos, há aqueles que crêem em Allah e no Dia do Juízo
Final; consideram tudo quanto distribuem em caridade como um veículo
que os aproximará de Allah e lhes proporcionará as preces do
Mensageiro. Sabei que isso os aproximará! Allah os acolherá em Sua
clemência, porque é Indulgente, Misericordiosíssimo” (9:99).
Al Numan tornou-se um leal defensor da bandeira do Mensageiro de
Allah (S), e lutou em todas as batalhas com energia e convicção.
Quando a liderança da comunidade muçulmana passou para Abu Bakr Al
Siddik, o Al Numan e seu povo permaneceram do lado dele, e o
apoiaram firmemente nas batalhas de Al Ridda.
Durante o tempo da autoridade de Al Faruk Ômar b. al Khattab, Al
Numan desempenhou um importante papel, coisa que deixou sua marca na
história.
Antes da batalha de Al Cadisiya, o líder dos exércitos muçulmanos,
Saad b. Abi Waccas, enviou uma delegação ao imperador da Pérsia,
Yazdagurd, para convidar este a se juntar ao Islam. À cabeça da
delegação estava o Al Numan b. al Micarrin.
Quando chegaram a Al Madain, a cidade-capital do imperador, pediram
permissão para vê-lo, e foram convidados a isso. O imperador chamou
um intérprete, ao qual foi mandado dizer:
“Que coisa vos trouxe às nossas terras e vos tentou a invadir-nos?
Talvez tivésseis ficado empolgados com o fato de que tínhamos outros
afazeres, e não nos era conveniente agarrar-vos.”
Al Numan b. al Micarrin voltou-se para seus companheiros e disse:
“Se desejais, eu posso falar por vós. Se qualquer um de vós desejar
falar, farei com que avance, e permitirei que fale por nós.”
“Tu irás falar por nós”, disseram-lhe e, indicaram que Al Numan iria
falar por eles.
Al Numan começou dando graças e tecendo louvores a Allah, e
invocando Sua paz sobre o Seu Profeta (S). Então disse:
“Allah tem tido misericórdia de nós e nos enviou um Mensageiro (S)
que nos ensina a retidão e nos manda que a pratiquemos, e nos
previne acerca das más maneiras e nos ordena que nos refletimos
quanto a elas.
“Ele promete que se lhe obedecermos naquilo para o qual nos está
conclamando, Allah nos concederá bênçãos neste mundo e no outro. Num
curto tempo Allah trocou a nossa miséria por conforto, a nossa baixa
condição por honra, a nossa hostilidade entre nós mesmos por
fraternidade e misericórdia.
“Allah também nos tem ordenado que conclamemos os povos para isso,
porque é o melhor para eles, e que começássemos com aqueles que são
nossos vizinhos; portanto, estamos convidando-vos a que vos junteis
à nossa religião. Trata-se de um credo que afirma que a bondade é a
mais elevada virtude, e encoraja as pessoas a ela, e amaldiçoa toda
a vileza, e admoesta-nos a evitá-la. Aqueles que o abraçarem serão
transportados da opressão e escuridão da incredulidade para a luz da
justiça e da fé.
“Se responderdes favoravelmente ao nosso chamamento ao Islam,
deixaremos convosco o Livro de Allah como vosso guia, far-vos-emos
guardiães sobre ele, com a vossa responsabilidade de agirdes pelas
sua leis; e vos deixaremos para que cuideis dos vossos assuntos.
“Se recusardes entrar na religião de Allah, viremos cobrar o Jizya
que deveis, e vos defenderemos; e se recusardes entregar o Jizya,
declararemos guerra contra vós.
O imperador Yazdagurd ficou furioso com o que ouvira, e disse:
“Jamais houve um povo sobre a terra de mais baixa condição do que
vós, ou menor em número, ou mais dividido, ou que vivesse na maior
miséria. Nós sempre temos dependido dos nossos governadores
provincianos para que vos mantêssemos em submissão, e isso nunca foi
difícil para eles.” Sua ira se abateu um pouco, e ele continuou:
Se foi a pobreza que vos fez vir a nós, ordenaremos que algumas
provisões vos sejam enviadas até que vossas terras recebam chuva e
se tornem mais férteis; e enviaremos roupas para vossos chefes e
para os nobres dentre vosso povo, e poderemos apontar um rei que vos
irá tratar benevolentemente.”
Um dos árabes da delegação demonstrou sua desdenhosa recusa à oferta
de Yazdagurd, coisa que aguçou a fúria deste, e ele disse:
“Se não fosse pelo fato de que a oferta fosse ficar danificada, eu
vos mataria a todos. Eu nada vos devo. Dizei ao vosso líder que vou
enviar o meu general, Rustam, contra ele, e ele vos irá enterrar,
juntamente com o vosso líder, na trincheira de Al Cadisiya.”
Então ele deu uma ordem para que uma carga de terra fosse trazida, e
disse para seus homens:
“Forçai o membro mais nobre deste grupo a carregá-la nas suas
costas, e fazei com que ele vá na vossa frente, para que todos o
possam ver, até que ele deixe a capital dos nossos domínios.”
Eles perguntaram para a delegação qual era o membro mais nobre, e o
companheiro Asim b. Ômar se apresentou como voluntário. Fizeram com
que ele carregasse a terra até que tivesse deixado Al Madain. Depois
ele passou a carga para o seu camelo, e a levou para o Saad b. Abi
Waccas, dando a este a feliz notícia de que Allah iria dar as terras
dos persas para os muçulmanos, e que eles iriam possuir o próprio
solo delas.
Foi chegada a hora da batalha de Al Cadisiya, e a trincheira que
rodeava a cidade foi, na verdade, enchida com os abatidos na
batalha, mas estes eram do exército pagão do imperador, e não dos
muçulmanos.
Os persas não se conformaram com a derrota de Al Cadisiya.
Reagruparam suas forças e aprontaram um exército de cento e
cinqüenta mil dos seus mais ferozes guerreiros. Quando a notícia da
preparação dos persas para a guerra chegou ao Al Faruk Ômar, ele
resolveu liderar, ele mesmo, os exércitos muçulmanos, e encarar a
ameaça. Os cidadões liderantes da cominidade o desencorajaram de
fazer aquilo, e o aconselharam a enviar um líder de confiança que
pudesse manejar com um assunto tão sério. Ele lhes pediu que
indicassem uma pessoa que pudesse assumir a responsabilidade sobre o
exército, na fronteira, e lhe disseram:
“Tu és o mais familiarizado com os teus soldados, ó Comandante da
Fé!”
“Darei o comando dos exércitos muçulmanos a um homem que é, juro por
Allah, mais rápidos do que as próprias lanças: Al Numan b. al
Micarrin al Muzani.” Seus conselheiros concordaram com a escolha
dele; Ômar escreveu para o Al Numan:
“De Ômar b. al Khattab para Al Numan b. Micarrin:
“Após as minhas saudações, desejo informar-te de que ouvi dizer que
um grande número de forças ajam se juntou para vos atacar, na cidade
de Nahavand. Tão logo esta carta chegue até ti, ide ao encontro
deles para fazerdes o trabalho de Allah e, com a Sua ajuda, talvez
Ele vos conceda a vitória. Leva todas as forças muçulmanas contigo,
mas não os exponhas a qualquer perigo, pois um muçulmano é mais
valioso para mim do que cem mil dinars. Que a paz esteja contigo!”
Al Numan saiu com seu exército para encontrar o inimigo, e mandou à
frente uma facção de batedores para que checassem as estradas.
Quando os batedores chegaram próximos a Nahavand, seus cavalos
estancaram. Eles os incitaram para a frente, mas os cavalos não
quiseram continuar. Os batedores desmontaram para verem qual seria o
problema, e encontraram lascas de metal que pareciam cabeças de
pregos nos cascos dos animais. Os batedores examinaram o terreno e
constataram que os persas haviam espalhado pedaços de metal
pontiagudos pelos caminhos que levavam a Nahavand, para evitar que
qualquer um, mantando ou a pé, dela se aproximasse.
Os cavaleiros informaram a Al Numan acerca da descoberta dos
batedores, e requisitaram que ele lhes desse um estandarte para que
pudessem combater o inimigo. Al Numan ordenou-lhes que mantivessem
suas posições, e que fizessem fogueiras para que os inimigos os
pudessem ver. Assim, os muçulmanos iriam fazer de conta que estavam
intimidados pela força inimiga, e iriam fingir uma retirada, para
que a força inimiga, tentada pela possibilidade de derrotar os
muçulmanos, viesse a eles, e limpasse das estradas os estilhaços.
O estratagema funcionou, pois tão logo os persas viram os batedores
se retirarem, ordenaram que os sapadores fossem limpar os caminhos.
Logo que estes terminaram o trabalho, os muçulmanos voltaram, a toda
força, e ocuparam as estradas.
Al Numan havia estabelecido seus quartéis com uma clara visão de
Nahavand, e decidiu por se antecipar ao inimigo, atacando primeiro.
Ordenou aos seus soldados:
“Irei estabelecer três takbirat (declarar “Allahu Akbar”). No
primeiro, aprontai-vos; no segundo, cada um deverá desembeinhar sua
espada; e no terceiro, desfecharemos juntos uma carga ao inimigo.”
Al Numan proferiu os três takbirat, e eles assaltaram as fileiras
inimigas como se fossem leões atacando, e as forças dos muçulmanos
se “despejaram” sobre elas como se eles fossem as águas duma
inundação arrebatadora. Uma das batalhas mais ferozes registradas
pela história então teve lugar entre as duas forças. O exército
persa foi dizimado, com seus integrantes caídos espalhados pelos
montes e planuras. Havia poças de sangue por todo o lado, sendo que
o cavalo de Al Numan escorregou e caiu. Al Numan ficou fatalmente
ferido. Seu irmão apanhou a bandeira, envolveu-o com um manto, e
escondeu dos muçulmanos o fato de que Al Numan estava morto.
Quando aos muçulmanos foi concedida a vitória, eles denominaram
aquela batalha como “a maior das vitórias”. Depois se puseram a
procurar o seu líder, Al Numan b. Micarrin. Seu irmão foi para
frente, revelando o corpo de Al Numan, e disse: “Este é o vosso
comandante. Allah concedeu-lhe o prazer de ver a vitória e a nobre
sina do martírio!” |