Umayr b. Wahb

“Umayr b. Wahb tornou-se mais amado, para mim, do que um filho.” Omar b. al Kattab.

Umayr b. Wahb voltou a salvo da batalha de Badr, mas deixou para trás o seu filho Wahb, cativo nas mãos nas mãos dos muçulmanos. Umayr temia que os muçulmanos se vigassem do rapaz, por causa dos seus próprios malfeitos. Temia que o tratassem com crueldade, como castigo pelos danos que ele, Umayr, tinha causado ao abençoado Profeta, e pelas torturas que ele havia infligido aos companheiros do abençoado Profeta.

Numa manhã, Umayr foi para a mesquita para caminhar em torno da Kaaba e aprsentar seus respeitos aos ídolos. Aí ele encontrou Safwan b. Umaiya sentado perto do santuário, e o saudou, dizendo: “Bom dia, mestre dos Coraixitas!” “Bom dia, Abu Wahb. Vem sentar-te e conversar um pouco, pois não há nada melhor para passar o tempo do que uma conversação.”

Umayr sentou-se, ficando de frente para o Safwan b. Umaiya, e se puseram a recapitular as grande perdas em Badr, e os números dos cativos que haviam caído nas mãos de Muhammad e dos seus companheiros. Lamentaram-se quanto aos senhores do Coraix que caíram sob as espadas dos muçulmanos, e jaziam então no fundo do poço de Culaib. Safwan b. Umaiya suspirou e disse: “A vida não vale mais a pena, agora que se foram!” Umayr assentiu e, depois dum breve silIencio, disse: “Juro pelo Senhor da Kaaba que, se não fosse pelas dívidas que não posso pagar e pelos meus filhos, por quem temo, caso venha a morrer, iria matar o Muhammad, livrando-nos dele, duma vez por todas!”

Então, baixando a voz, continuou: “Aliás, o fato de que tenho o meu filho, Wahb, cativo, faz parecer perfeitamente normal eu viajar para Yasrib(o nome pré-islâmico de Madina). Ninguém iria suspeitar de nada...”

Safwan b. Umaiya viu na fala do Umayr uma oportunidade de ouro, e se apegou a ela. Voltou-se para ele, dizendo: “Ó Umayr, considera minha as tuas dívidas; haverei de pagá-las, não importa quão pesadas sejam. E considera meus os teus filhos, pois irei provê-los por todo o tempo em que eles e eu vivermos. Tenho dinheiro suficiente para garantir que eles vivam no luxo.”

“Então, guarda a nossa conversa em segredo, e não fales com ninguém sobre ela”, disse Umayr, e Safwan concordou. Umayr deixou a mesquita com o coração alastrando-se de ódio por Muhammad (S). Começou a fazer os preparativos para levar avante a sua resolução, e não tinha medo de que alguém suspeitasse que na sua viagem havia um quê de vingança. Muitos dos indivíduos do Coraix tinham parentes que eram cativos de guerra nas mãos dos muçulmanos, e tinham o hábito de viajar para Yasrib para os resgatarem. Pediu para que seu criado lhe troussesse a espada, afiou-a e untou-a com veneno. Pediu por sua montaria, que foi preparada e levada a ele. Pulou para as costas dela, e se pôs a caminho de Madina, com o coração agitado de ódio e rancor. Quando chegou a Madina, dirigiu-se para a mesquita, à procura do abençoado Profeta. Ao chegar perto da entrada, fez o seu camelo ajoelhar, e desmontou.

Naquele momento, Ômar b. al Khattab estava sentado com alguns Companheiros perto da entrada da mesquita. Estavam a falar da batalha de Badr e das perdas dos Coraixitas, bem como dos prisioneiros que os muçulmanos haviam feito. Recapitulavam as heróicas ações dos muçulmanos no campo de batalha, os muhajirun(plural de muhajir. Aqueles que empreenderam a Hégira, ou migração, de Makka para Madina, juntamente com o abençoado Profeta) aqui, os ansar(os habitantes de Al Madina que receberam os Muhajirun, repartindo com eles os seus lares, suas posses e suas riquezas) ali, e de como Deus os havia honrado com a vitória, e massacrado os inimigos.

Aconteceu que Ômar se virou e viu Umayr b. Wahb desmontando e se dirigindo para a mesquita com a sua espada enfiada na sua bainha, e pulou alarmado, e disse: “Aquele cão, aquele inimigo de Deus, é Umayr b. Wahb. Ele vem com más intenções! Em Makka, ele costumava incitar os pagãos contra nós, e era o espião deles contra nós, um pouco antes da batalha de Badr.” Então, disse para os seus associados:

“Ide ter com o Mensageiro de Deus, e postai-vos ao redor dele. Tomai cuidado para que nenhuma traição lhe seja feita por aquele vil intrigante!”

Então Ômar procurou o nobre Profeta, e lhe disse: “Ó Mensageiro de Deus, esse inimigo de Deus, Umayr b. Wahb, veio portando uma espada, e eu acho que veio apenas para fazer o mal.” O nobre Profeta disse: “Traze-o a mim.” Então Ômar foi até aonde estava Umayr, e pegou-o pelos tirantes da bainha da espada; dessa maneira ele o levou perante o abençoado Profeta que, depois de o olhar bem, disse: “Larga-o, Ômar, larga dele!” Então o Profeta (S) disse par Ômar: “Sai de perto dele!”

Quando Ômar tinha ido, o abençoado Profeta chegou perto de Umayr, e disse para este fazer o mesmo. Umayr disse: “Bom dia!” (Esta era a saudação dos árabes pagãos.) O abençoado Profeta respondeu: “Deus nos honrou com uma saudação melhor do que a vossa, ó Umayr. Ele nos honrou com a saudação que inclui ‘Paz’, que é a saudação dos habitantes do Paraíso.” Umayr respondeu: “Por deus, homem, a vossa saudação não está tão distante da nossa; até recentemente, tu próprio costumavas usá-la!” Ignorando a rudeza do oponente, o abençoado Profeta perguntou: “Que te traz aqui, ó Umayr?” “Vim rogar pela libertação de um prisioneiro que vós tomastes. Peço te que me obsequies por meio dele.” Então, por que trazes a espada contigo?” “Que Deus amaldiçoe esta, entre as espadas! Ela nada fez por nós, em Badr.” “Dize-me a verdade; a que vieste, ó Umayr?” “Já te disse.” Então o abençoado Profeta disse: “Não, Tu te sentavas no santuário juntamente com o teu amigo, e recapitulavas o caso daqueles Coraixtas que foram enterrados em Al Qulayb. Etão disseste: “‘Não fosse pelas minhas dívidas e pelos meus dependentes, iria lá, e mataria o Muhammad.’ Então Safwan disse que iria arcar com as tuas dívidas e prover pelos teus dependentes, caso tu me matasses. Porém, Deus irá impedir-te de fazeres isso.” Umayr ficou estarrecido, então pronunciou:

“Testifico que tu és o Mensageiro de Deus.” Depois acrescentou: “Nós não acreditávamos em ti, ó Mensageiro de Deus, nem no que nos trouxeste do Céu, nem tampouco na revelação que recebeste. Eis que, do meu assunto com Safwan, ninguém sabia a não ser ele e eu, e estou certo de que ninguém a não ser Deus te informou acerca dele. Louvado seja Deus Que me trouxe aqui, perto de ti, para me guiares ao Islam.”

Então ele formalmente testemunhou que não há deus a não ser Deus, e que Muhammad é o Seu Mensageiro, e tornou-se muçulmano. O abençoado Profeta disse para os Companheiros: “Ensinai ao vosso irmão a sua religião, ensinai-lhe o Alcorão, e libertai o seu cativo.” Os muçulmanos ficaram super regozijantes com a aceitação do Islam por parte de Umayr b. Wahb. O próprio Ômar b. al Khattab (que Deus esteja aprazido com ele) disse: “Quando Umayr b. Wahb veio ter com o abençoado Profeta, eu preferia que fosse um porco a ser Umayr, e hoje eu venho a amá-lo mais do que se fosse um dos meus filhos.”

Umayr passava o tempo a purificar sua alma com os ensinamentos do Islam, e a encher seu coração com luz do Alcorão. Aqueles foram os dias mais ricos e mais significativos da sua vida, dias que se escoavam, com Makka e todos os que ele lá conhecera longe da sua mente. Enquanto isso, Safwan b. Umaiya estava cheio de esperança, sendo que, ao passar pelos ajuntamentos de Coraixitas, dizia: “Alegrai-vos, porque logo ireis receber grandes notícias que vos farão esquecer as perdas de Badr.” Quando Safwan b. Umaiya sentiu que sua espera se tornara demasiadamente longa, a ansiedade tomou conta do seu coração. Chegou ao ponto em que se encontrou na agonia da inquietação, e começou a perguntar para os caravaneiros que passavam se tinham notícias de Umayr b. Wahb. Não recebia resposta satisfatória de ninguém, até que, finalmente, um viajante deu-lhe as novas de que Umayr havia entrado para o Islam. Safwan ficou estupefato, pois sempre pensara que Umayr jamais iria tornar-se muçulmano, mesmo se toda a humanidade aceitasse o Islam.

Depois que Umayr b. Wahb se tornou proficiente quanto ao Alcorão, e aprendeu o que era necessário quanto às questões práticas da religião, foi ter com o abençoado Profeta, e disse:

“Ó Mensageiro de Deus, passei grande parte da minha vida tentando extinguir a luz da verdade que vinha do Senhor. Causei grandes danos àqueles que se haviam dado ao Islam. Agora eu desejaria que tu me desses permissão para ir a Makka, a fim de convidar os Coraixitas para Deus e o Seu Mensageiro. Se eles aceitarem, será bom; se recusarem, irei fazê-los sofrer por sua idolatria, como costumava causar sofrimento aos seguidores do Mensageiro de Deus.” O abençoado Profeta deu-lhe a permissão, e ele partiu para Makka. Quando chegou a casa de Safwan b. Umaiya, entrou, e se dirigiu a ele: “Ó Safwan, tu és um dos mestres dos Coraixtas e, certamente, um dos mais bem pensantes deles. Será que faz sentido passares a vida a cultuar ídolos de pedra e a fazer sacrifícios por eles? Será que é essa a religião de um homem sensível? Quanto a mim, eu presto testemunho de que não há deus a não ser Deus, e de que Muhammad é o Seu Mensageiro.” Depois Umayr começou a pregar o Islam em Makka, e obteve muitos conversos. Que Deus lhe conceda abundantes recompensas e encha de luz o seu túmulo!


Capitulo 5

Al Bará b. Málik al Ansari