Ummu Salama

A Nobre Viúva da Arábia

Como poderemos começar a conhecer tudo o que há para conhecer acerca dela?

Seu pai foi um dos mais nobres da tribo dos makhzum, e um daqueles destacados por sua generosidade. Era conhecido como aquele que provia os viajantes, tanto que as pessoas não portavam provisões consigo, caso fossem passar pelas terras dele, ou fossem estar em sua companhia. Seu marido era Abdullah b. Abd al Asad, um dos dez primeiros homens a aceitar o Islam. Ninguém se tornara muçulmano antes dele, salvo Abu Bakr as Siddik e um pequeno número de outros.

O nome dela era Hind; mas quando lhe foi dado o matronímico Ummu Salama, este se tornou o nome pelo qual todas a conheciam. Torno-se muçulmana juntamente com o seu marido e, portanto, compartilha da dignidade de estar entre os primeiros muçulmanos. A tribo dos Coraixitas ficou furiosa quando a notícia das conversões de Ummu Salama e do seu esposo se espalhou, e eles lançaram contra ambos uma campanha de crueldade que podia comover até os matacões. Os dois não arrefeceram face a tal tratamento, nem tampouco suas crenças ficaram abaladas.

Quando seus sofrimentos atingiram seus extremos, e o abençoado Profeta deu aos seus seguidores permissão de emigrarem para a Abissínia, eles estiveram na vanguarda dos emigrantes. Ummu Salama viajou juntamente com seu marido para o exílio, deixando para trás seu lar opulento, seu status social, e seu orgulho tribal, esperando pela recompensa de Deus, e tendo tudo como de pouco valor em comparação ao Seu aprazimento.

Ummu Salama e seus companheiros encontraram proteção junto ao Negus (Negus – o imperador da Abissínia cristã que se recusou veementemente a entregar os muçulmanos para os seus inimigos pagãos. Eventualmente, ele se converteu ao Islam) da Abissínia (que Deus lhe conceda a felicidade, no Paraíso); contudo, seus corações tinham saudades de Makka, onde a Palavra de Deus estava sendo revelada ao seu amado Profeta (S). Em pequenos fragmentos, as notícias chegavam aos imigrantes da Abissínia, primeiramente do aumento do número de muçulmanos, depois das conversões de Hamza b. Abd al Muttalib e de Ômar b. al Khattab, sendo que ambos eram homens poderosos e calejados guerreiros. A entrada deles para o Islam aumentou em muito a capacidade da recém criada comunidade de se defender por si só. Alguns dos exilados resolveram voltar para Makka, levados pela vontade de se reunirem aos muçulmanos, em casa. Umm Salama e seu marido estiveram entre os primeiros que voltaram.

Os repatriados muçulmanos rapidamente descobriram que muitas das notícias que haviam chegado até eles tinham sido exageradas, e que a evolução da situação dos muçulmanos, causada pelas conversões de Ômar e Hamza, havia-se voltado contra eles. Os pagãos, dentre os Coraixitas, tornavam-se mais determinados nas suas perseguições contra os muçulmanos, e tornaram-se mais do que nunca cruéis, calculistas e inescrupulosos. Naquele ponto, Profeta (S) anunciou aos seus seguidores a sua decisão de fazer com que eles emigrassem para Madina. Umm Salama e seu marido resolveram ser os primeiros emigrantes, para o bem da sua religião, e para escaparem à perseguição feita pelos Coraixitas.

A Hégira deles não iria ser tão fácil como imaginaram. Foi uma experiência dura e amarga, que evidenciou no seu rastro uma tragédia, sobre todas as tragédias.

A própria Ummu Salama assim relata a estória: “Quando Abu Salama (seu marido) planejou sair para Madina, preparou um camelo para que eu montasse, e ajudou-me a montar nele. Então ele colocou o Salama, nosso filho, no meu colo, e se pôs a caminho, dirigindo o camelo e avançando sem parar, no seu curso. Antes de atingirmos os arredores de Makka, fomos vistos por alguns homens da minha tribo, os Banu Makhzum, e eles nos bloquearam o caminho.

Disseram para o Abu Salama: “‘Se pensas em nos deixar, não podes levar também a tua esposa contigo. Ela é filha nossa; e como poderemos deixar que a tires de nós e se ponham a vagar pelo país?’ Então arremeteram contra ele, e me tiraram dele pela força.

“Quando a tribo dele, os Banu Abd al Asad, soube daquilo, seus membros ficaram irados, e foram tirar satisfações com o meu povo, dizendo-lhes: “‘Vós podeis ter tomado vossa parenta, mas nós juramos por Deus que não vos deixaremos tomar a criança, depois de terdes tirado, à força, a mãe do nosso parente. Ele é filho nosso, e nós temos mais direito sobre ele.’

“Depois eles começaram a puxar a criança Salama, para lá e para cá, entre eles, até que lhe destroncaram o braço; e a criança foi tomada. Assim, em questão de momentos, minha família foi separada, e eu me vi sozinha. Meu marido não teve outra escolha senão seguir sozinho para Madina; e meu filho, na minha frente, era levado, contundido e desfigurado. Minha própria tribo me arrastava como prisioneira. Nós três havíamos sido separados.

“Daquele dia em diante, eu ia, bem cedo, todas as manhãs, para a cena da minha desdita. Aí sentava-me, revivendo os momentos da minha tragédia, e relembrando como eu havia sido privada do meu marido e do meu filho. Passava o dia chorando, até que ficasse escuro. Assim vivi por quase um ano, até que um primo meu passou por mim, um dia, e se condoeu. Foi ter com os meu parentes, e disse: “‘Por que não deixais a pobre mulher ir em liberdade? Vós a separastes do seu marido e do seu filho!’ Ele continuou a apelar para os sentimentos deles, tentando amolecer seus corações, até que, finalmente, eles disseram para mim: “‘Podes ir juntar-te ao teu marido, se quiseres.’ “Mas, como poderia eu juntar-me ao meu marido, em Madina, e deixar o meu filho, que era parte de mim, em Makka, com os Banu Abd al Asad? Como poderia meu coração sarar ou minhas lágrimas secar, se eu tivesse que viver no exílio, com meu filho em Makka, sendo que nada iria saber dele?

“Algumas pessoas viram como eu sofria com o meu desejo de ter meu filho de volta e, levados pela bondade, foram ter com as gentes de Abd al Asad, e fizeram apelações, até que eles devolveram a criança para mim. “Eu não queria ficar em Makka a esperar por alguém com quem viajar, porque temia que algo inesperado pudesse acontecer, algo que evitasse que fosse reunir-me ao meu marido. Então eu me antecipei, e preparei a minha própria montaria, pus a criança no meu colo, deixei Makka, e parti para Madina, sem nenhuma companhia humana. Ainda não tinha atingido Al Tan’im(Al Tan’im – um bairro distante cerca de dois quilômetros e meio de Makka), quando encontrei-me com Otman b. Tal-ha(Otman b. Talha – ele fora o guardião da Caaba no período da (Jahilya). Ele aceitou o Islam juntamente com Khalid b. al Walid, sendo que o abençoado Profeta confiou a ele a chave da Caaba. Ele era ainda pagão, no tempo em que se passou esse episódio), que me perguntou: “‘Para onde te diriges, ó filha do provedor dos viajantes?’ “‘Desejo reunir-me ao meu marido, em Madina’, disse eu. “‘Sem ninguém a acompanhar-te?’ “‘Ninguém, a não ser Deus e meu filho, aqui.’ “‘Não te deixarei desprotegida por todo o caminho para Madina’, ele disse, pegou as rédeas do camelo, e se pôs a caminho, dirigindo o roteiro.

“Por Deus, jamais estive na companhia de um homem tão honrado e grácil. Quando chegávamos a um ponto de parada, ele fazia com que o camelo se ajoelhasse e ficava um pouco distanciado para que eu desmontasse. Depois vinha, desselava o camelo, e levava-o até a uma árvore, em que o amarrava. Então distanciava-se para me dar alguma privacidade, e ia dormir na sombra de outra árvore. “Ele continuou a fazer aquilo todos os dias, até que chegamos a Madina. Quando encontramos um agrupamento de casas, em Cubá, pertencentes às famílias de Amr. b. Auf, ele disse: “‘Teu marido está aqui; vai, com as bênçãos de Deus!’ Depois deu meia volta e se dirigiu para Makka.” A família que havia sido separada estava finalmente reunida; os pesares de Umm Salama por fim se abateram, e Abu Salama ficou super regozijante em ter com ele sua esposa e seu filho. Então, os eventos começaram a ocorrer rapidamente. Abu Salama participou da batalha de Badr, e voltou com os muçulmanos, aos quais Deus havia concedido uma retumbante vitória.

Depois de Badr veio a batalha de Uhud, e Abu Salama mais uma vez provou a sua fé e coragem, no campo de batalha. Dessa vez, contudo, ele ficou seriamente ferido, e passou-se um longo tempo antes que parecesse recuperar-se. Seu ferimento, porém, embora cicatrizado, havia adquirido um abscesso e, em pouco tempo, reabriu, forçando o homem a voltar para o seu leito de enfermo. Ao estar sendo cuidado, disse para Umm Salama: “Ouvi o abençoado Profeta dizer: “‘Se uma pessoa sofrer uma calamidade, e dizer inna lillahi wa inna ilayhi ráji’un (pertencemos a Deus e a Ele retornaremos), e depois dizer, ó Deus, busco a Tua recompensa e compensação por esta calamidade, ó Deus, concede-me coisa melhor do que aquilo que perdi, Ele, com Seu poder e Sua glória, irá conceder-lha.’” Abu Salama permaneceu no seu leito de enfermo por alguns dias.

Numa manhã, o abençoado Profeta foi visitá-lo; ele mal tinha-se posto a partir, e sair para fora da casa, quando Abu Salama expirou. O abençoado Profeta voltou e, com suas nobres mãos, fechou os olhos do amigo; então, elevou os olhos para os Céus, e disse: “Ó Deus, concede perdão para o Abu Salama, e concede-lhe um status no Paraíso, junto aos Teus mais achegados; e faze por suprir aqueles que ele deixou após ele. Ó Senhor do Universo, faze com que sua sepultura seja espaçosa, e enche-a de luz!”

Ummu Salama lembrou-se do que seu marido lhe havia contado das palavras do Mensageiro de Deus (S), e disse: “Ó Deus, busco a Tua recompensa e compensação para esta calamidade...” Porém, foi incapaz de completar a súplica, imaginando se poderia haver um melhor marido do que Abu Salama. Depois de pouco tempo, lembrou-se de que deveria proferir toda a súplica, e assim fez.

Os muçulmanos prantearam a perda de Ummu Salama, como jamais haviam pranteado a perda de ninguém antes, e passaram a chamá-la “a nobre viúva da Arábia”. Ela não tinha parentes em Madina, a não ser o seu próprio filho, que ainda era pequeno e tenro como os filhotes de codornizes.

Os muhajirun e os ansar, juntos, acharam que era da incumbência deles proverem a Ummu Salama. Tão logo ela completou o seu período de luto por Abu Salama, o Abu Bakr as Siddik lhe propôs casamento, mas ela recusou. Depois o Ômar b. al Khattab se ofereceu a ela, e ela também o recusou. Então o abençoado Profeta lhe propôs casamento, e ela disse a ele: “Ó Mensageiro de Deus, eu tenho três predicados que talvez não te agradem: sou muito ciumenta, e talvez vá fazer algo que despertará a tua ira, pelo que Deus irá punir-me. Não sou mais uma jovem. Finalmente, tenho filhos a quem devo devotar muito do meu tempo.” O abençoado Profeta (S) replicou: “Pedirei a Deus, no Seu poder e na Sua glória, que te livre do teu ciúme. Quanto à tua idade, fica sabendo que eu, também, não sou mais um jovem. No que concerne aos teus filhos, eles ficarão sendo meus, também.”

O abençoado Profeta desposou a Ummu Salama, e assim Deus atendeu o pedido dela, dando-lhe em casamento o único homem que poderia ser melhor para ela do que o Abu Salama. Desde aquele dia, a Hind, da tribo dos Banu Makhzum, não foi mais apenas a Ummu Salama (a mãe de Salama), mas tornou-se a Mãe de todos os Crentes.

Que Deus conceda felicidade para Ummu Salama, no Paraíso. Que Ele esteja aprazido com ela, e que a faça sentir-se alegre.


Capitulo 7

Sumama b. Ussal