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Amr b. al Jamuh era um dos líderes
de Yasrib durante o tempo de Al Jahiliya, um dos chefes da altiva
tribo dos Banu Salama. Foi um dos moradores de Madina que eram
renomados por suas cavalheirices e generosidades.
Um dos costumes da nobreza, no tempo de Al Jahiliya, era terem em
casa um ídolo particular. Prestavam seus respeitos a ele pela manhã
e à tardezinha, faziam sacrifícios a ele nos dias de festividade, e
apelavam para ele nos tempos de calamidade. O ídolo do Amr b. al
Jamuh chamava-se Manat. Havia sido esculpido em preciosa madeira, e
o homem passva horas cuidando dele, esfregando-o com óleos raros e
perfumados.
Amr b. al Jamuh tinha mais de sessenta anos de idade quando o
despertar da fé religiosa irrompeu sobre Yasrib, tendo os seus raios
a iluminar a cidade, lar após lar. Isso aconteceu via um dos
primeiros muçulmanos a pregar na cidade, Musab b. Umayr, que
conseguiu converter os três filhos de Amr: Muawwaz, Moaz e Khallad,
juntamente com um companheiro deles chamado Moaz b. Jabal. Ao mesmo
tempo que seus filhos, sua esposa Hind também aceitou a fé, sem
contudo conhecer patavina do assunto.
Hind, a esposa de Amr b. al Jamuh, via que em toda Yaçrib a maior
parte dos senhores e dos chefes se havia convertido ao Islam, e
nenhum permanecia pagão, exceto o Amr b. al Jamuh e uns poucos
outros. Ela o amava e o tinha em elevado respeito, mas ao mesmo
tempo temia que ele morresse idólatra e fosse para o Fogo do
Inferno.
Por seu turno, Amr temia que seus filhos abandonassem o culto dos
seus ancestrais e seguissem o pregador Musab b. Umayr, que já havia
convertido muitos dos pagãos de Yasrib para a religião de Muhammad
(S). Ele disse à esposa:
“Toma cuidado, ó Hind, senão os nossos filhos irão encontrar-se com
aquele pregador, antes que eu tenha a oportunidade de formar uma
opinião a respeito dele!”
“Teu desejo é uma ordem”, disse ela, “contudo, gostarias de ouvir,
dito pelo nosso filho Moaz, o que ele ouviu o homem dizer?”
“Maldita sejas!”, ele berrou. “Será que o nosso filho
descuidadamente esqueceu as nossas crenças, sem ao menos eu disso
saber?”
Hind temeu que um excesso de raiva fosse ser danoso para seu idoso
marido, então respondeu:
“Não, mas ele assistiu a algumas reuniões do pregador, e guardou na
memória algo do que este disse.”
“Dize-lhe que quero vê-lo.” Quando Moaz chegou, seu pai disse:
“Quero ouvir o que aquele pregador disse.” O filho começou:
“Em nome de Allah, o Graciosíssimo, Misericordiosíssimo. Todo o
louvor é para Allah, o Senhor dos mundos...” e ele recitou
a Surata do Alcorão – Al Fátiha – até ao fim.
“Oh, quão concatenante é esse discurso!”, exclamou Amr b. al Jamuh,
“e quão belo é! São iguais a esse todos os seus ensinamentos?”
“Melhores ainda, pai”, respondeu Moaz. “Não gostarias de te juntar a
ele, como o fizeram todas as pessas a ti relacionadas?”
Amr b. al Jamuh ficou em silêncio por uns momento, então disse:
“Nada irei fazer antes de consultar o ídolo Manat e, ver o que ele
diz.” Moaz argumentou:
“Ó pai, que poderia o Manat dizer? É um mudo pedaço de madeira que
não pensa nem fala!”
“Já te disse, nada irei decidir sem ele.”
Amr tinha o costume de levar para sua casa uma saga, quando desejava
consultar o ídolo. Fazia com que ela ficasse atrás da estátua, e
respondesse as perguntas dele, que todos diziam terem sido
inspiradas pelo ídolo.
Assim, Amr b. al Jamuh foi ter com o ídolo, e ficou perante ele, em
pé na sua perna boa, porquanto tinha uma perna completamente
aleijada. Ficando ereto, começou a se dirigir ao ídolo com a mais
respeitosa das saudações. Depois disse:
“Ó Manat, sem dúvida, tu tiveste conhecimento desse pregador que nos
veio de Makka. És o único a quem ele tenciona prejudicar. Ele veio
para nos proibir de te cultuar. Eu ouvi algumas das suas belas
pregações, mas odiaria dar a ele a minha adesão sem te consultar.
Portanto, dize-me o que fazer!”
O ídolo não deu resposta alguma, então o Amr b. al Jamuh continuou:
“Talvez tu estejas irado. Eu ainda nada fiz para te prejudicar.
Deixar-te-ei em paz por uns poucos dias, até que tua ira se
desvaneça.”
Os filhos de Amr b. al Jamuh sabiam o quão profundamente apegado ao
ídolo, Manat, seu pai era, e como, todo o tempo, a estátua se havia
tornado parte do seu próprio ser. Porém, sabiam também que o valor
dela se tinha tornado equívoco para ele, e sabiam que tinham de
encontrar um meio de extirpar esse amor do seu coração, por
completo, se é que queriam que ele se apegasse à fé religiosa.
Os filhos de Amr b. al Jamuh, juntamente com o amigo deles, Moaz b.
Jabal, pegaram o ídolo, na calada da noite, e o levaram embora.
Depositaram-no num buraco que pertencia aos Banu Salama, que o
usavam para jogarem lixo. Voltaram para casa, sem ninguém por
testemunha.
Chegou a manhã, e o Amr b. al Jamuh foi, como de costume, saudar o
ídolo. Notando a falta dele, exclamou:
“Malditos sejais todos vós! Quem foi que pecou contra a nossa
deidade, noite Passada?”
Ninguém foi capaz de responder à sua pertgunta, então ele saiu à
procura do ídolo, dentro e fora da casa, esbravejando ameaças e
maldições o tempo todo. Finalmente ele o encontrou, de cabeça para
baixo, no buraco. Reavendo-o, ele o esfregou, lavou e perfumou,
antes de o recolocar no seu devido lugar. Depois disse:
“Juro por Allah que se encontrar quem cometeu este ato contra ti,
farei com que fique humilhado!”
Na noite seguinte, os jovens repetiram as suas ações com o ídolo e,
na manhã subseqüente, o velho tornou a procura o ídolo.
Encontrando-o novamente no buraco, coberto de refugos, recuperou-o,
limpou-o e o perfumou, e o pôs de volta ao seu lugar.
Os jovens continuaram, noite após noite, a colocar o ídolo no
buraco. Quando Amr b. al Jamuh se desesperançou de evitar que aquilo
acontecesse, acercou-se do ídolo, antes de se retirar para a noite;
pegando o tirante da espada, pendurou-o no ídolo, dizendo:
“Ó Manat, juro que não sei quem está fazendo isto para ti. Se vales
alguma coisa, defende-te desse mal, pois eis que tens uma espada
aqui!”
Então ele se retirou; e tão logo os jovens tiveram certeza de que
ele estava dormindo, foram pegar o ídolo. Depois de lhe tirarem a
espada, levaram-no para fora da casa, e o amarraram a um cachorro
morto. Então atiraram-no numa cova em que os Banu Salama usavam para
depositar a água suja.
Dessa vez o velho acordou, procurou o ídolo, e o encontrou na cova,
atado ao cachorro morto, tendo sua espada sido roubada. Ele não o
apanhou; foi embora deixando ali a coisa, dizendo:
“Juro por Allah que se fosses deveras uma deidade, não irias
permitir que fosses acabar assim!” Não muito tempo depois, ele
entrou para o Islam. Encontrou tanta felicidade na sua fé, que era
acometido de arrependimento por cada momento que passara como
idólatra. Tornou-se parte do Islam, e o Islam tornou-se parte dele;
e colocou a si mesmo, sua riqueza e seus filhos, a serviço de Allah
e do Seu Profeta (S).
Não demorou muito para que a batalha de Uhud tivesse lugar, e o Amr
b. al Jamuh viu seus filhos se prepararem para a justa contra os
inimigos de Allah. Observava-os virem e irem, cheios de desejo de
morrer, cada um deles, como sahid, para ficarem bem vistos aos olhos
de Allah. O entusiasmo deles o inflamava, e ele resolveu encetar o
jihad com eles, sob a bandeira do Mensageiro de Deus (S).
Unanimemente, o jovens concordaram em evitar que seu pai agisse de
acordo com sua resolução. Ele era idoso, frágil e aleijão, o tipo de
pessoa que Allah isentava do jihad. Disseram-lhe:
“Pai, o Próprio Allah, no Seu Livro, eximiu-te; por que, então, te
impões algo do qual Allah te excusou?” O velho ficou furioso com a
fala deles, e saiu à procura do Mensageiro de Allah (S), ao qual se
queixou:
“Ó Profeta de Allah, meus filhos querem me excluir dessa boa ação,
com a argumentação de que eu ando manquejando. Eu juro que quero ir
manquejando por todo o caminho rumo ao Paraíso!” Então o abençoado
Profeta (S) disse para os filhos de Amr b. al Jamuh:
“Permiti que ele vá, porque talvez Allah pretenda conceder-lhe a
morte como sahid”. Em obediência ao pedido do Mensageiro de Allah
(S), eles permitiram que o pai fosse.
Quando chegou a hora de partirem para a batalha, o Amr. b. al Jamunh
se despediu da sua esposa como se não fosse voltar. Depois, virando
o rosto na direção de Makka, ergueu as mãos em súplica, dizendo:
“Ó Allah, concede-me a morte como chahid, e não me tragas aqui de
volta em decepção!” Então se pôs a caminho, flaqueado pelos seus
três filhos e por uma grande companhia de gentes da sua tribo, os
Banu Salama.
Quando a ferocidade da batalha atingiu o seu auge, e muitos dos
combatentes deixaram de estar ao redor do abençoado Profeta (S), o
Amr. b. al Jamuh podia ser visto nas primeiras fileiras de
lutadores, pulando, com sua perna boa, repetindo:
“Anseio por entrar no Paraíso, anseio por entrar no Paraíso!” E
atrás dele estava o seu filho Khallad. Os dois lutaram intensamente,
defendendo o Mensageiro de Allah (S), até que sucumbiram, na
batalha, com a diferença de segundos um do outro.
Tão logo a batalha terminou, o abençoado Profeta (S) foi em busca
dos que haviam sido mortos como mártires, para os enterrar no campo.
Ele disse para os seus companheiros:
“Não os laveis! Deixai estar seus ferimentos e seus sangues, pois
eis que irei testemunhar o modo como morreram, no Dia da
Ressurreição. Qualquer muçulmano que sofrer um ferimento para o bem
de Allah, aparecerá, nesse dia, com o sangue aparentando uma bela
cor, e com um odor igual aos mais preciosos dos perfumes. Sepultai o
Amr b. al Jamuh junto ao Abdullah b. Amr, pois que eram muito amigos
e achegados, neste mundo!”
Que Allah esteja aprazido com o Amr b. al Jamuh e com seus
companheiros que, como ele, morreram como mártires em Uhud, e que
Ele dê luz para seus túmulos! |